Mostrar mensagens com a etiqueta Crónica. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Crónica. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Crónica: O Segredo dos Xutos & Pontapés

No passado dia 16 de Maio, a ETIC proporcionou, aos que por lá apareceram, uma palestra/conversa de tom informal com Zé Pedro, uma das figuras de maior relevo do panorama musical português. Ser humano de qualidades inestimáveis, o guitarrista dos Xutos & Pontapés abordou de forma descomprometida diversos aspectos da sua carreira como músico: como os Xutos são uma banda com os olhos postos no futuro; como, no principio, tocavam em qualquer lugar e por qualquer preço; ou como em 1977 havia entre 15 e 20 punks em Lisboa.

O músico, que já foi jornalista, foi deliciando a audiência com episódios diversos e marcantes na sua já longa carreira, de mais de 30 anos. Mas o que me traz a estas linhas é uma simples afirmação: "na vida, o mais importante é dar e receber. Quando tens 30 mil pessoas a aplaudir-te efusivamente, tens de retribuir esse carinho de forma obrigatória". Zé Pedro referia-se, obviamente, ao primeiro concerto, na edição do ano passado do Optimus Alive, após o mui badalado transplante hepático a que foi sujeito. Numa época em que, perdoem-me a expressão, há música a rodos, os artistas têm de procurar novas formas de fidelizar o público. É mais que evidente que a arrogância artística já não é algo que encante particularmente as audiências. Aliás, é perfeitamente natural que numa era em que todas as distâncias estão cada vez mais curtas, o público procure também uma maior proximidade com os seus ídolos.

Já não basta a música. Há todo um pacote que inclui a imagem, a ideologia, a atitude e um sem número de factores, que é procurado por quem consome música. Zé Pedro e os Xutos & Pontapés perceberam isso, não nos dias de hoje, mas desde o principio de carreira. Dessa forma, a maior banda nacional retribui o carinho público com total entrega em palco e novidades de todas as formas e feitios: música, alinhamentos de concertos ou merchandising. Este, meus caros, é o grande segredo para que a música dos Xutos atravesse três gerações com o sucesso que se vê.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Zé Pedro

«Sabes quem é que conheci hoje? O Zé Pedro, dos Xutos», disse eu à minha irmã, em conversa ao telefone. «A boa energia que ele transmite... é incrível». Ela concordou: «Sim, é essa a ideia que eu tenho dele». De facto, as boas vibrações, quando genuínas, atravessam qualquer meio - seja a televisão, a rádio, o papel impresso ou o disco. Mas quando temos oportunidade de estar na presença de um músico - e de um homem - como o Zé Pedro, o impacto é mil vezes maior.

Essa oportunidade aconteceu no passado dia 16 de Maio, num encontro organizado pela ETIC e moderado por Rui Miguel Abreu. Os moldes da conversa foram definidos logo aos primeiros minutos: enquanto Rui Miguel Abreu pedia aos presentes para se chegarem mais para a frente, Zé Pedro pegou na mesa que fazia de barreira entre "artista convidado" e "público" e afastou-a para o lado. Neste clima de proximidade, muitas histórias foram contadas: os dias em que começou como jornalista de música, a formação da banda, os altos e baixos num percurso já com 33 anos, até mesmo o nascimento do punk e do grunge.

Mas é da energia deste homem que não me vou esquecer. Zé Pedro sente-se profundamente grato por fazer aquilo que o apaixona e por pertencer à banda mais acarinhada pelos portugueses. Por isso, faz questão de responder pessoalmente ao email de um miúdo de 10 anos, carregado de perguntas para os Xutos. Acredita que a música só faz sentido enquanto processo de dar e receber. «Um músico, quando sobe ao palco, é um fio condutor. Temos de retribuir a energia que estamos a receber do público com o nosso empenho - nem que seja para uma plateia de cinco pessoas. Um artista que não consegue retribuir isso fica tonto, megalómano, egoísta.» Acredita que a arte é saudável quando esse fio condutor se liga também a outros artistas - sejam eles músicos, jovens designers ou profissionais de video.

Recorda-se da primeira coisa em que pensou, quando acordou depois da cirurgia: «em 15 dias ponho-me bom e consigo estar no Optimus Alive». E isto embora os médicos estimassem um recobro de 3 semanas. A paixão alimentou-lhe o corpo e deu-lhe alta, a tempo de subir ao palco do Passeio Marítimo de Algés. Trinta mil pessoas a aplaudirem à sua frente, «um baque» e a emoção que o fez chorar, a si e aos seus colegas.

A dada altura, pedi a sua opinião acerca do estado do jornalismo musical em Portugal. Esperava críticas sobre o que não temos. Recebi elogios sobre o que temos. Perante um copo meio vazio, Zé Pedro vê um copo meio cheio. E eu vejo uma lição de vida.

Crónica: Negócios com o Tempo

Fiquei emocionado quando ouvi os primeiros acordes de "Sete Mares". Aposto que uma larga fatia das pessoas que esgotaram o Coliseu de Lisboa sentiram o mesmo arrepio. Quase 30 anos depois de "Glória", mais de 20 depois dos grandes concertos, a Sétima Legião estava de novo ali, no palco. Sem substitutos livres de rugas ou cabelos grisalhos. Era mesmo a formação original da banda.

Na noite de sexta-feira, o Coliseu transformou-se em máquina do tempo para toda uma geração que viveu a adolescência nos anos 80. Até para aqueles que eram catraios, mas que, como eu, têm irmãos mais velhos que lhes despertaram o gosto pela música pop e para quem o Top Disco era tão importante como os desenhos animados. O que me levou a concluir: é tramado estar na casa dos 30 e ter a música como a paixão mais antiga. Porque se já estivesse nos 40, muito provavelmente teria assistido à glória da Sétima Legião no Pavilhão Carlos Lopes. Teria sido quase certo um lugar nas primeiras filas do Estádio José Alvalade, a ver David Bowie. Teria rumado a Madrid ou Barcelona e sido esmagado pela monumental Blond Ambition Tour de Madonna. Só que em 1990, ano em que se situam os ditos casos, os meus 13 anos não permitiram tamanhas aventuras. É tramado.

Enquanto a banda de Pedro Oliveira e Rodrigo Leão tocava a sua música e na nossa memória, dei por mim a accionar a imaginação. «Se soubesse o que sei hoje...» e pudesse negociar com o Tempo, estaria entre os que testemunharam o pulsar dançante e revolucionário dos Heróis do Mar, quando em 81 se estrearam no Rock Rendez-Vous. Seria até um nadinha mais ambicioso e rumaria à Londres de 79, para assistir à mítica (e única) digressão de Kate Bush. E não me perdoaria se perdesse a viagem até Nova Iorque, para transpirar na pista no Paradise Garage, com Lerry Levan ali mesmo, na cabine do DJ. Não fui mais atrás, para não trair o sentimento de pertença - neste exercício de evasão vale tudo até 77, ano em que passei a fazer parte desta realidade.

Pois a julgar pelo que aconteceu no mês passado em Coachella, caminhamos a passos largos para converter estes voos - da lembrança ou da imaginação - em coisas "reais". Durante a actuação de Snoop Dogg e Dr. Dre, surgiu em palco um convidado especial: nada mais que Tupac Shakur, o rapper cujo assassinato deixou consternada a comunidade hip hop, corria o ano de 96. Obviamente, era um holograma, mas a audiência ficou algures entre a perplexidade e a comoção. É dado assente que a memória e a "retro-mania" alimentam todo um negócio, que começou de mansinho nas compilações e estações de rádio temáticas. Tornou-se mais engenhoso e invadiu as salas de espectáculo - não foi há muito tempo que o Atlântico recebeu Kim Wilde, os ABC, Nik Kershaw e Belinda Carlisle, todos na mesma noite, num pack nostálgico com o rótulo “Here And Now”. Até aqui, tudo bem. Mas agora, começa a entrar no domínio do bizarro: o negócio da memória quer acordar os mortos.

Diz-se por aí que Tupac, o holograma humano, vai entrar em digressão pelos Estados Unidos. Que é o mesmo que dizer: já vamos poder pagar para ver palcos vazios. Daqui até termos James Brown ou Elvis a dançar na nossa sala, vai um pulinho. É esquisito demais para a minha cabeça. Prefiro a verdade 2D de uma imagem de arquivo. Ou os meus voos imaginários. Ou os Sétima Legião com rugas e cabelos grisalhos, a presentearem-nos com a sua real magia, no palco do Coliseu. Isto sim, pode causar-me arrepios.

Rui Clemente, Maio de 2012

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Crónica: Mastodon no Coliseu dos Recreios




O Coliseu dos Recreios com música “sem parar", na tão aguardada estreia em nome próprio dos norte-americanos Mastodon.


Umas horas antes do início do espectáculo nas imediações da sala lisboeta, já os cafés se "vestiam de negro" e a muita cerveja era "peça decorativa" nas mesas. O sempre fiel público “metaleiro” entrava em estágio para um Coliseu que não encheu, mas que tinha grandes expectativas em torno da actual banda sensação do Metal.

As primeiras guitarras fizeram-se ouvir pelo quarteto de Portland Red Fang, que mesmo não sendo propriamente do lado mais negro da família, fazem um rock de “barba rija” e terminaram a sua curta actuação com o público a gritar bem alto o seu nome, sobre o contentamento de uma agradável surpresa.

Eis que no tempo de se pedir mais uma cerveja e fumar mais um cigarro, a introdução de “Dry Bone Valley” foi como uma sirene de alerta para a chegada dos “homens das cavernas” de Atlanta e o seguimento explosivo de “Black Tongue”, fez as delícias dos que desesperavam por ouvir ao vivo um dos álbuns mais elogiados pela crítica em 2011.

Sem interagirem uma única vez com público durante toda a actuação, os novos temas de The Hunter preencheram grande parte do alinhamento da banda norte-americana, mas não se resumiram à única “caçada” da noite. O lado mais “carniceiro” dos primeiros álbuns Leviathan e Blood Mountain fez-se sentir ao som de "Crystal Skull", "I Am Ahab", ou "Iron Tusk", e a viagem melódica de Crack The Skye também não ficou esquecida na arte de bem tocar “Ghost of Karelia”.

Tecnicamente perfeitos (não estivéssemos nós a falar de músicos de Metal), os solos de guitarra de Brent Hinds são daqueles que não se aprendem nos livros e a coordenação motora que sai da bateria “rudimentar” de Brann Dailor, faz-nos concordar com Lars Ulrich (Metallica), quando este afirmou que na actualidade Brann é um dos melhores bateristas do mundo.

Um ponto negativo foi a acústica do Coliseu (aspecto não muito recorrente numa das melhores salas do país), pois em nada ajudou as vozes que claramente são o “elo mais fraco” da banda fora de estúdio. Não fosse o coro do público durante “Curl Of The Burl” e poderíamos afirmar que até existiu uma certa apatia de quem por determinados momentos, parecia estar apenas a ouvir um concerto instrumental.

No final ainda houve tempo para o palco se encher de “tipos barbudos” com o regresso dos Red Fang no último tema “Creature Lives”, quando finalmente a linguagem ouvida foi além da música e dos microfones saiu um “obrigado, vemo-nos no verão!”.

Mastodon de respeito, numa noite de estreia que termina sobre a confirmação do regresso a Portugal dia 25 de Maio, na presente edição do Festival Rock in Rio.




quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Crónica: O Bom, O Mau E O Hype

Texto publicado originalmente na edição n.º 840 do Jornal O Povo do Cartaxo, dia 16 de Dezembro de 2011.
Dois mil e doze chegou e, apesar de quase todas as maiores publicações já o terem feito, é chegado o momento do Ruído Alternativo revelar os seus 45 eleitos internacionais e 15 nacionais para melhor disco do ano. Decidimos fazê-lo, desde sempre, após do final do ano para não passarmos ao lado de nenhum lançamento do ano musical, algo que os que publicam a sua lista em Novembro não se podem orgulhar. O público em geral não dá a mínima atenção a estas listas, mas nós, os cromos que gostam de música, levamos a coisa muito a sério. De tal forma que todos queremos dar a nossa opinião e fazer a nossa própria lista, nem que seja para guardá-la só para nós. Teoricamente, com tantas listas publicadas em grandes instituições da imprensa nacional, internacional ou até em blogues de culto ou nem tanto, seria de esperar uma diversidade absurda de nomes. Não é bem isso que acontece.
Nos primeiros contactos que tive com este tipo de listas até fiquei algo surpreendido com as parecenças entre todas estas famosas listas. Arrisco a dizer que, nas publicações que se dizem generalistas, este ano chegamos ao ridículo de mais de 80% dos artistas se repetirem em todas as tabelas, estando apenas trocadas as posições em que são colocados. Claro que vão sempre havendo surpresas, mas na generalidade os nomes vão sendo os mesmos. Mas nem as publicações especializadas em determinados estilos de música estão a salvo desta generalização de escolhas. Veja-se o caso do heavy metal: há dois anos as revistas dedicadas a este género colocavam nas suas listas de melhores do ano dezenas de bandas de sludge e pós-metal (perdoem-me se vos estou a aborrecer), enquanto hoje o black metal europeu é rei neste tipo de listas.
Chego à conclusão que todas as publicações baseiam as suas escolhas principalmente em modas. A Pitchfork será, por ventura, um dos melhores exemplos para explicar o fenómeno que enuncio ao longo deste artigo. Trata-se de uma referência absoluta para qualquer melómano que se preze, mas, tal como a Wikipedia, devemos tomar precauções ao utilizá-la – embora tenha acontecido uma melhoria significativa nos últimos anos. O facto é que a Pitchfork não gosta de artistas estabelecidos que ainda não tenham dado por terminada a carreira. Tudo o que é novo e refrescante é que é bom, pelo menos no momento.
Embora não esteja completamente imune a este fenómeno, a cultura do mastiga e deita fora nunca me atraiu, como já fui deixando perceber desde que iniciámos este espaço n’ O Povo do Cartaxo. Nunca fui de modas: decidi ser do Benfica nos anos mais difíceis do clube; enquanto todos torciam por Schumacher, eu gostava era de Raikkonen e Webber; enquanto todos ouviam a Rádio Cidade eu ouvia a Antena 1.
Num ponto acho que estamos todos de acordo: algo que perdure no tempo é sempre melhor que um fenómeno passageiro. Fazendo um conveniente paralelismo, na música passa-se exactamente o mesmo que nos carros. Hoje todos querem salvar o planeta com o Toyota Prius, enquanto o pequeno Smart já é uma lembrança embaraçosa do passado. Eventualmente, a humanidade fartar-se-á do Prius quando descobrir que este não é assim tão ecológico e até é bastante feio. Eu continuo no meu veículo com quase 14 anos, a caminhar para clássico, sem me preocupar com as modas, pois sei que nunca falhará.
Não pretendo fazer deste artigo uma espécie de ode ao glorioso passado (sem rimas, claro), apenas alertar para o excessivo histerismo à volta de tudo o que é novo. Caso não haja esta cautela, a vossa nova banda alternative-post-pop-folk-indie-metal pode tornar-se num novo Smart na vossa vida.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Crónica: Cortar Na Cultura É A Morte De Um Povo

Texto publicado originalmente na edição n.º 839 do Jornal O Povo do Cartaxo, dia 16 de Dezembro de 2011.
Portugal é realmente o país das desigualdades. Olhando para os planos e compromissos de 2012 para a cultura em Portugal, qualquer pessoa chega à conclusão que a cultura é um ‘bem desnecessário’ para o país. Já em edições anteriores d’O Povo do Cartaxo repudiei a “descida de divisão” do Ministério da Cultura a Direcção Geral da Cultura – uma medida completamente retrógrada, que se traduz num passo para trás de uma sociedade de primeiro mundo para terceiro mundo. Só Hungria e Portugal, na zona europeia, é que não têm um ministério dedicado à cultura – um atentado aos povos. De uma sociedade do século XXI caminhamos para uma sociedade de que só há memória na década de 70 do século XX.
Sim, todas as pessoas ligadas à cultura sabem perfeitamente que “precisamos de cortar” e “emagrecer” o papel do estado numa época como esta que atravessamos, mas estando a Cultura associada ao ministério do Primeiro-Ministro verifica-se que só a cultura é a única pasta que sofre um corte de 20% (!) no orçamento previsto para esta, o que não acontece em qualquer outra pasta do governo. Já para não falar ainda na discriminação dos livros perante o resto da cultura e [perante] os espectáculos desportivos, em que os livros ficarão com a taxa de IVA nos 6%, os espectáculos desportivos a 23% e o resto da cultura a 13%. E o “resto da cultura” (sem menosprezar os espectáculos desportivos) tem tanta importância como os livros: música, teatro, ópera, artes plásticas, museus, património histórico, cinema, espectáculos artísticos, dança, e muitos outros – tudo considerado “lixo cultural” para o actual governo, certamente.
Há ainda nisto tudo duas agravantes. Primeiro, sem investimento na cultura não há receitas; ou seja, quanto menor o investimento na cultura menor serão as receitas fiscais para o estado – é lógico. E desde há muito tempo que é irrisória a fatia do orçamento para a cultura em Portugal. Mesmo atendendo a todos os problemas socioeconómicos mundiais, há muitos exemplos de clareza, eficiência e de bom trabalho por parte de muitos meios e institutos culturais: veja-se, por exemplo, o site do Teatro D. Maria [http://www.teatro-dmaria.pt/] em que estão lá todas as contas e despesas reveladas, e no entanto o secretário-geral da cultura, Francisco Viegas, entendeu “por bem” cortar pelo segundo ano consecutivo em 15% o investimento para aquele espaço, anteriormente dirigido por Diogo Infante – se o investimento já era insustentável que dizer agora? Há quem já tenha feito as contas por mim: todos os portugueses pagam por ano cerca de 19€ para a cultura, em receitas fiscais como as do tabaco, gasolina, comida e outros, e mesmo assim teima-se em cortar na cultura sempre que começa um novo ano.
A segunda agravante, e a mais nefasta para todos nós, é o pensamento que se anda a instalar em toda a sociedade portuguesa por causa de toda a austeridade e sacrifícios pedidos e exigidos. Passo a explicar: hoje em dia é normal ouvirmos a opinião generalizada de que “se temos de poupar, não precisamos de espectáculos culturais para nada”. Todavia, a cultura não se resume a “espectáculos”; a cultura tem um poder social tão forte quanto a educação. A cultura olha para os tempos de ontem, hoje e amanhã, educa povos, muda opiniões… faz-nos pensar! A cultura faz-nos seres melhores e nunca submissos a um pensamento formatado das nações, individualiza as nossas opiniões. Um teatro pode ajudar e libertar as vítimas de violência doméstica; uma pintura ensina-nos a organizar ideias, a reflectir sobre o passado e a sonhar com um futuro melhor; até uma canção do malogrado Tony Carreira (bendito para muitos) nos pode ensinar muito sobre humildade e como lidar com o amor…
Não exijo aqui a maior fatia do orçamento de estado para a cultura em Portugal. Exijo apenas que a cultura não seja olhada de lado e que seja respeitada como uma ferramenta para uma melhor sociedade. Que não seja considerada um luxo nem um lixo; que a cultura seja, sim, somente cultura.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Dealema: mini-tour de apresentação de “A grande Tribulação”.



Os nortenhos passaram pela capital para apresentar a sua “última criança”. No espaço TMN, a noite contou ainda com a participação do espanhol Nach.


O quinto álbum, deste grupo de hip-hop do Porto, sucede assim a “Arte de Viver” de 2010 editado pela Optimus discos. Os MC’s e produtores, Mundo, Maze, Dj Guze, Ex-Peão e Fuze estão de volta com um trabalho mais real e sombrio, num formato clássico relembrando 1996, data do seu primeiro álbum “ Expresso do Submundo”.


Apresentaram-se em Faro, Lisboa e Porto (8,9 e 10 de Dezembro). Fizeram-se acompanhar por Nach, conceituado rapper espanhol, natural de Alicante, que trouxe consigo “Mejor que el silencio” (2011) o seu 8º álbum editado, que tem participações de Talib Kweli, Akhenaton, Dealema, entre muitos outros artistas conhecidos do público. E no Porto, contaram ainda com a participação especial do DJ Rob Swift.


Os Dealema foram adquirindo várias gerações de fãs ao longo do tempo e por isso mesmo os temas da actualidade estão bem presentes n’ “A grande Tribulação”. Da nova geração à educação, da mudança à esperança, das memórias ao futuro, é isto que predomina neste novo CD. A identificação do público com o álbum foi imediata, devido à sua circulação online, prova disso foi o coro da plateia que encheu e iluminou o espaço TMN ao vivo, no Cais do Sodré.


Um disco com duas caras, uma viagem em 3D pelas palavras, pelo lado mais negro da vida, pela crise actual, pelo circo do nosso mundo, com palhaços reais e aterradores - “Verdade ou consequência”.


Com mais de 15 anos de estrada os Dealema mantêm a juventude e rebeldia indispensáveis ao hip-hop e provam com este novo álbum porque continuam a ser uma referência na música nacional.


Joana Nunes e Hugo Tomé

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Crónica - Nouvelle Vague na Arena Live do Casino de Lisboa


De regresso a Portugal, os franceses Nouvelle Vague marcaram presença no palco da sala de espectáculos do Casino de Lisboa, acompanhados de convidados bem conhecidos da música e televisão portuguesas, para a apresentação da sua reinvenção da Pop nacional da década de 80, o projecto Nouvelle Vague PT.

Entrada livre e gente vestida a rigor para um Casino Lisboa "à pinha", onde desta feita a atracção principal não foram as máquinas, ou as mesas de jogo, mas sim a música.

Por entre, os que ainda subiam e desciam as escadas rolantes tentando encontrar o último canto disponível com uma visão aceitável para o palco e os que "estacionaram" para nunca mais se movimentarem do lugar. Helena Noguerra e o restante colectivo entraram em palco sorridentes e cheios de boa disposição, empenhados em contagiar tanto os mais privilegiados das primeiras filas, tal como os que tiveram de acompanhar o concerto pelos vários ecrãs dos diferentes pisos.

A música fez-se sentir inicialmente por temas do repertório francês, aquecendo ainda mais o ambiente já quente nos primeiros 15 a 20 minutos. O desfile aguardado dos anos de ouro da Pop nacional deu-se logo de seguida com a entrada do primeiro convidado Rui Pregal da Cunha e a sua interpretação de "Sol da Caparica" dos Peste e Sida.

Fantasia e boa disposição não lhe faltaram para alimentar a curiosidade da noite em torno das seguintes "representações" em palco das Actrizes Dalila Carmo e Inês Castelo Branco. Enquanto a primeira "sacudiu a pressão" aproveitando o "à vontade" deixado pelos dois entusiastas anteriores e fez de conta que ninguém reparou no seu ar, um tanto ou quanto matinal em "Foram Cardos, Foram Prosas" de Manuela Moura Guedes. A segunda ficou "presa" ao microfone demonstrando que aquele não é o seu palco, mesmo sendo bem mais interessante "ver" aquele "Homem do Leme" dos Xutos e Pontapés, ou menos tradicional aquele "Pastor" dos Madradeus.

A voz Portuguesa da noite ficou a cargo da fadista Teresa Lopes Alves com a gratificação para o público presente da sua dupla interpretação dos temas "Irreal Social" dos BAN e a intemporal "Rua do Carmo" dos UHF.

Nos regressos ao palco de Rui Pregal da Cunha e Dalila Carmo em dueto, ainda houve tempo para a visão francesa do Punk dos Pistols, ou da New Wave dos Joy Division, com as agradáveis versões de "God Save The Queen" e "Love Will Tear Us Apart".

Uns Nouvelle Vague bem conseguidos, para um espectáculo que não foi o "jackpot" que todos esperam quando tentam a sua sorte no Casino, mas foi sem dúvida um tempo bem passado e mais uma aposta bem sucedida na agenda de entretenimento do Casino de Lisboa.

Por: Hugo Tomé & Joana Nunes


terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Crónica: 80 < 90

Texto publicado originalmente na edição n.º 833 do Jornal O Povo do Cartaxo, dia 23 de Setembro de 2011.
Faz amanhã, dia 24 de Setembro, 20 anos que foi lançado um álbum que revolucionou a indústria musical mundial. Falo do disco Nevermind dos Nirvana, banda de Seattle (E.U.A.), responsável por uma das grandes viragens na música no século passado, revolução que ecoa ainda nos dias de hoje. "Smells Like Teen Spirit", em particular, música presente no disco em questão, é «A» música deste disco e de uma era; fora dos formatos da pop/rock da altura dominante, de cabedal e cabelos platinados, e de espírito declaradamente underground, traz consigo todas (ou quase) as bandas de garagem para a ribalta. Por impossível que possa parecer foi responsável pelo aparecimento e criação de inúmeras bandas que poderiam também sonhar com o sucesso a partir daquele momento, daquele lançamento, e é também responsável pela criação de diversos e dispersos formatos de alto consumo de canções fora do formato pop reinante. A pop continuava a reinar mas outras linguagens surgiam com tanta ou mais força. A isto tudo junta-se o mito: Kurt Cobain, líder dos Nirvana, que tinha uma voz declaradamente limitada, mas peculiar, surge numa imagem fora dos parâmetros normais de estrela pop; torna-se no último grande “herói” do rock mundial também com um alegado suicídio, em 1994, que põe todo o sucesso alcançado num patamar ainda mais alto, bem como ajuda a criar um mito para a eternidade, escrito nas páginas da história da música mundial popular. 1991 marcou definitivamente o mundo da música, com grande destaque para este disco; não só a sua música - foi e é algo maior para além disso.
Aproveito então esta efeméride, e numa altura em que está na calha o lançamento de diversas reedições de luxo deste disco (DVDs, raridades, caixas especiais, edições limitas…) para rejubilo de muitos que viveram aquela época com os seus próprios olhos, para dissecar um assunto: será a década de 80 a melhor da música? Nas seguintes linhas farei por clarificar o meu pensamento.
Hoje as pessoas que viveram intensamente o tempo dos Nirvana, de Seattle e toda a década de 90 terão 30 ou mais anos, ou seja isto corresponderá, se a sociedade assim o proporcionou naturalmente, a um maior poder económico para essas pessoas na actualidade – regra geral. Isto significa que hoje essas pessoas tem capacidade financeira para coleccionar, consumir e ouvir o material e a música da sua adolescência, do seu tempo – a década de 90. Com isto quero afirmar que a partir de agora, aos poucos e poucos, será a década de 90 a melhor década da música, como é óbvio observar. Tudo porque a indústria musical vai potenciar as suas forças para este novo “nicho” (note-se o eufemismo) que tem agora poder financeiro para comprar as bandas sonoras da sua juventude.
Não falo só de Nirvana e das bandas à volta desta que despontaram da música underground a partir de 1991, falo também de toda a década de 90, com tantos outros grandes nomes da pop (boys e girlsbands, as Britney Spears entre outros(as)); o hip-hop e o seu exponencial crescimento; o metal, os seus congéneres e as fusões de metal com hip-hop; a electrónica; a eurodance; o tecno e a disco sound da mesma década. Todo o foco e poder financeiro vão estar, nos próximos tempos, virado para aqueles anos.
É, e sempre será assim. Quando uma nova década começa, uma nova geração, que acaba de adquirir poder financeiro, começa a moldar, a dar as coordenadas e as direcções (onde está o dinheiro, entenda-se) para toda a indústria musical de forma a que esta forneça aquilo que esta nova geração quer ouvir. É a lei normal da passagem do tempo, ganha quem pode, e será a década de 90 a melhor daqui adiante.
Agora, caro leitor, da próxima vez que lhe perguntarem qual é a melhor década da música reflicta bem. A década de 90 está prestes a reinar durante uns 10/15 anos e certamente que em 1976 ninguém reconheceria a década de 80 como a melhor da música. Sei que eleger a década 90 como a melhor da música é pura subjectividade, tal como nomear a de 80, a de 70 e por aí adiante; mas conformemo-nos e desfrutemos da década que irá dominar nas nossas rádios, seguir-se-ão outras a seguir a esta.
Alguém pediu o regresso dos anos 90?

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Crónica: Smashed Head no Saramaga Rock

Smashed Head abriram mais uma edição do Saramaga Rock. Veja aqui o vídeo de "Broken Silence" ao vivo.
Mais de um ano depois de se terem atirado aos palcos, os Smashed Head estreavam-se finalmente em Vila Chã de Ourique - vila que fornece à banda metade dos seus elementos. Coube-lhes a honra de dar o tiro de partida da sexta edição do Saramaga Rock, festival que também regressava neste dia 2 de Agosto de 2011 à casa-mãe depois de uma quinta edição realizada no Cartaxo.
Os Smashed Head são uma banda de quê? Punk hardcore? Thrash metal? Metalcore? Ainda ninguém sabe. Sabemos apenas que se trata de um dos mais pesados projectos saídos do rock cartaxense e que conseguiu juntar à sua volta uma interessante base de fãs. Nem os Fantasy Opus, nem os The Temple, os outros nomes do cartaz, se podem orgulhar de uma assistência maior que a que seguiu o concerto da jovem banda.

Os Smashed Head basearam o alinhamento nos seus próprios originais, os três presentes no EP The Creature e ainda a recém-estreada "Broken Silence". Houve no entanto tempo para diversas versões e covers: a versão "metaleira" de "I Want It All" dos Queen e "Cowboys From Hell" dos Pantera abriram o concerto.
Pelo meio foram desfilando ainda os originais "Blackloud" e "Creature" - com um Carlos Prada bastante enérgico na guitarra (segundo o próprio, a formula chama-se Monster Energy) -, a versão acelerada de "Enter Sandman" dos Metallica, "Breaking The Law" dos Judas Priest para o público mais antigo e ainda o momento de mais humor com o medley "Peace Is Dead/Warriors Of The Hezbollah" dos Kalashnikov.
A interacção com o público esteve, como sempre, a cargo do baixista Francisco Costa, mas também o vocalista Marco Boavida havia de deixar a sua marca no concerto ao recusar-se a abandonar o palco sem tocar "Until The End" - que a banda afirma carinhosamente tratar-se do seu single. O pequeno verso deste tema "smash your head" foi quase cantado em uníssono pela plateia, para surpresa dos próprios músicos.
No final, e apesar de mais de uma hora de concerto, o público pedia mais. Terá de ficar para outro dia.

Setlist:
  • "I Want It All" (Queen)
  • "Cowboys From Hell" (Pantera)
  • "Blackloud"
  • "Enter Sandman" (Metallica)
  • "Creature"
  • "Braking The Law" (Judas Priest)
  • "Let The Bodies Hit The Floor" (Drowning Pool)
  • "Chop Suey!" (System Of A Down)
  • "Broken Silence"
  • "Peace Is Dead/Warriors Of The Hezbollah" (Kalashnikov)
  • "Until The End"

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Crónica: Viva o Fado (Hoje e Amanhã)

Texto publicado originalmente na edição n.º 838 do Jornal O Povo do Cartaxo, dia 2 de Dezembro de 2011.
Confesso que este não era para ser o tema do artigo desta edição d'O Povo Do Cartaxo. Planeava voltar a questão do serviço público nos meios de comunicação, abordando agora o tema das rádios estatais, mas terá de ficar para outra oportunidade. A razão para esta alteração de planos prende-se com o todo o espectáculo criado à volta da aprovação do Fado como Património Imaterial da Humanidade. Sei que nem todos deram a mesma atenção a este importante reconhecimento - a maior parte dos noticiários continuaram a abrir com futebol - mas os que deram, fizeram-no de uma forma algo exaustiva. Não é todos os dias que vemos quase 30 minutos de um telejornal dedicados à cultura. Aliás, não tenho memória de algo semelhante ter acontecido.
Não estou, de forma alguma, a contestar a atenção dada a este acontecimento. Apenas gostaria de advertir o público para dois factores. O primeiro dos quais tem a ver com os que não deram importância alguma a este acontecimento: se algo tão tipicamente português como o Fado não interessa aos portugueses, não estou bem a ver o que interessará. Sabemos bem como funciona o jornalismo televisivo em Portugal. Por um lado, há espaço na grelha para um telejornal com quase duas horas de duração, mas dentro do próprio telejornal não há espaço para um bloco de notícias culturais digno desse nome, nem para mais notícias de desporto que não futebol. O recado serve também para os que no fim-de-semana passado fizeram uma cobertura exemplar do acontecimento, para que não adormeçam à sombra de um bom momento e continuem a falar de cultura sem a arrumarem para um canto no final do telejornal, como se de um assunto menor se tratasse.

Decerto compreendem e partilham da minha surpresa, não é normal passar-se tanto tempo a falar de algo que realmente interessa e nos leva a algum lado. A falta de hábito dos portugueses no que toca a encontrar cultura nos meios de comunicação não especializados leva-me ao segundo ponto: o Fado ser Património da Humanidade, só por si, não vale nada. Há cerca de um ano era o Flamenco que estava na posição do Fado e, já hoje, alguns membros da comissão que prepararam a sua candidatura desejavam melhor sorte aos portugueses como património Imaterial da Humanidade. Refira-se ainda que o Flamenco tem feito um esforço no sentido da modernização, quer seja por conta própria ou por fusão com outros estilos. O Fado, convenhamos, não mudou assim tanto e as fusões que têm surgido a conta-gotas são previsíveis e pouco arrojadas. Ou seja, há que promover agora o Fado como património da humanidade, caso contrário sete anos da vida dos autores da candidatura podem ficar comprometidos.

Nos últimos dias pode-se ter ouvido falar muitas vezes em Fado, mas se o deixarmos cair no esquecimento, tanto faz que seja património da humanidade ou património do gado bovino. Cabe a nós público e aos meios de comunicação, fazer "propaganda" a este nosso produto. E, provavelmente, é o melhor momento para o fazer, já que estamos num período de popularidade do Fado só equiparável a outro acontecido algures antes do 25 de Abril.
Ao contrário do que muitas mentes retrógradas pensam, a música não é só entretenimento. É também parte da história dos povos e, sendo assim, o Fado conta uma grande parte da história dos portugueses. Resta-me dar os parabéns aos autores desta candidatura e a todos os que ajudam a levar o Fado, a língua e música portuguesas além fronteiras. O trabalho começa agora.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Crónica: Hindi Zahra - Acima De Tudo, Uma Opinião


Quarta-feira, 9 de Novembro, uma noite de estreias.

Primeira aula com o Rui Miguel Abreu, primeira vez na Sala TMN ao Vivo, e a primeira vez que oiço o nome Hindi Zahra.

O palco está montado, a iluminação à medida, a sala composta, não muito tímida mas descontraída o suficiente para não haver qualquer desconforto, pois todos sabemos o quão incómodo é um empurrão aqui, uma cotovelada ali.

O relógio ronda as 22h00, o cansaço insuportável e o sono ameaçava fazer-me desistir mesmo antes do começo. Todo o concerto é uma memória enevoada, entre o sonho e a realidade, e se a realidade não me falha Zahra faz-se seguir por dois guitarristas, um baixista, um baterista e uma percursionista. A vocalista, Zahra, apresenta-se, as guitarras ressoam e o espectáculo começa.

Na minha cabeça oiço-a por vezes perto, por vezes longe, e não digo isto como metáfora para a minha incompreensão das músicas cantadas em berbere, a sua língua nativa, mas sim pela onda de exaustão que se impunha em mim. Peço ajuda à parede mais próxima e concentro-me novamente. Olho em meu redor e dou conta de que Zahra, com a guitarra em mão também o público ela segurava, a adesão era total, ou tanto quanto a iluminação me permitisse observar.

O concerto vai a meio e o grupo não mostra sinais de desistência, alguns temas são-nos apresentados em versões mais intimistas, acústicas, apenas com Zahra e a ajuda ora de um membro ora de outro. A meio do espectáculo as influências vão-se desvendando - música berbere, jazz, folk, blues - nunca se tornando aborrecida ela pinta-nos uma fusão de ritmos, uns mais misteriosos, soturnos, outros mais coloridos nunca deixando de hipnotizar o público.

O concerto aproxima-se do fim. Neste ponto eu já flutuava, o meu corpo terreno jazia morto e eu deixava-me levar pelas melodias orientais de Zahra.

A última música acaba, mas todos sabemos que a última é sempre mentirosa e após os já esperados gritos e assobios que chamam pelo encore o palco enche-se novamente. Duas músicas mais tarde, Zahra, uma personalidade elegante e carismática canta-nos um simpático obrigado.

Volto a mim, o meu corpo obedece-me, as ideias começam a formar-se e esta opinião começa a nascer.

Hindi Zahra provou-se uma estreia agradável, não o meu género, confesso, com a sua música do mundo, orelhuda no seu próprio molde.

Se ao menos a minha viagem a Marrocos tivesse sido tão mágica como Zahra o leva a crer…

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Crónica: Capitães da Areia – Palco TMN ao Vivo

Sobre pleno Outono, uma certa ventania e uns quantos casacos, Os Capitães da Areia subiram ao Palco TMN ao Vivo em Lisboa no passado dia 11 de Outubro, para trazerem o verão de volta com o seu álbum de estreia, O Verão Eterno D'Os Capitães Da Areia.

Com uma Sala TMN composta e algo quente à sua espera, as primeiras vozes da reacção manifestam-se quando as luzes diminuem de intensidade e dão entrada em palco “Os Capitães dos Instrumentos”, entoando os seus primeiros acordes e ritmos de verão.

Quase que numa toada de warm up, uma ou outra cabeça já se movimenta na expectativa da entrada de destaque, reservada ao “Capitão da Voz”. Este não desilude e sobe ao palco poucos minutos depois, caracterizado pelo seu mundo de verão imaginário, “protegido do sol” por um chapéu curioso e pronto a cantarolar os requisitos essenciais para o livre acesso ao eterno verão dos Capitães.

O palco fica assim completo e o desfile de canções do trabalho de estreia da banda, apresentam uma mistura interessante entre um rock balanceado, ao estilo Indie dos tempos que correm e a tradicional Música Popular Portuguesa. De guitarras, a congas, passando por duas vozes femininas no coro… A boa disposição e o entretenimento fizeram parte da rota de navegação desta actuação, levando o público a uma agradável viagem, com destino final à “estância balnear” onde habitam mais uns filhos e netos dos Heróis do Mar… Imagem tão presente no rótulo da Amor Fúria.

Apesar de alguma sensação de monotonia sonora, apesar de algumas dificuldades de percepção das palavras exactas do “Capitão Pedro” em determinados momentos, todas estas sensações foram rapidamente esquecidas pelo dinamismo da banda em palco, pelo ritmo imposto durante toda a actuação e o completo à vontade do “líder da tripulação”, que transportou um ou outro mais exuberante do início, para mais de meia sala a dançar, finalizando sobre “o golpe” de um desfile pelo público entusiasmado, aos ombros do "patrão" Manuel Fúria.

Nota positiva para mais um nome com entrada directa no leque de bandas como, Os Golpes, Diabo na Cruz, Pontos Negros, entre outros… Atenções voltadas para a evolução deste movimento Indie Português, com forte aposta na preservação do sentimento patriótico, cultura e tradições, assente na possibilidade de estarmos a assistir a um novo “boom” do Rock Nacional.

Crónica: Hindi Zahra Apresenta Handmade Em Lisboa



Hindi Zahra, talvez não vos diga nada, como a mim também não, até inesperadamente ter assistido ao seu concerto na mais recente sala de espectáculos da capital, Sala TMN Ao Vivo a 10 De Novembro.

A marroquina, veio pela segunda vez a Portugal (a 1ª no Festival Sintra Misty), para dar-nos a conhecer em concerto com nome próprio o seu 1º CD Handmade (2010).

Entrando em palco com uma música serena e fazendo-se acompanhar por uma viola, sentiram-se as boas vibes que nos queria transmitir! Entra o resto da banda e conquista-nos cantando "Beautiful Tango", uma melodia que flui inocentemente e aumenta a emoção conforme se vai ouvindo. Não apenas numa doce voz, deu-nos a conhecer os seus dotes de guitarra, num momento em que pousou a viola e trocou o instrumento.

Foram óbvias as influencias soul, jazz, funk, indie pop, chamam-lhe o que quiserem, parece uma artista que "bebeu de várias fontes, do mundo inteiro" e juntou várias melodias, fazendo, a sua melodia, que nos transmite numa doce e sensual voz! A mesma que diz ter sido influenciada por artistas como Ali Farka Touré, Aretha Franklin ou 2Pac Shakur, canta em francês ou inglês ou berbere, nunca esquecendo as suas raízes, algo que se fez sentir em diversas canções.

"Hindi Zahra tem um gentil, original e ondulante sentido de melodia. Com um subtil e suave acompanhamento de guitarra, um traço de guitarras ciganas entre acordes e uma insinuação de blues. O tempo pára. Intenso, íntimo, com vibrações poéticas e timbre felino aveludado", escreve a promotora Uguru, que a representa em Portugal.

Radicada em França, a artista vencedora do prémio Constantin e um Victorie De La Musique, tem até ao final do mês vários concertos agendados, sempre em nome próprio, em diversos países. Sem duvida que Hindi Zahra é uma artista que tem tudo para conquistar a música e o mundo com as suas melodias cheias de boas vibrações.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Crónica: Uma Surpresa Chamada Hindi Zahra

São coisas assim que nos fazem perceber que estamos no lugar certo, à hora certa. Teria bastado o facto de estar na primeira - e tão esperada - aula de História da Música e ter o prazer de conhecer um profissional cujo trabalho sempre admirei, agora tornado meu professor para os próximos meses. Pois a estes ingredientes juntou-se uma surpresa, em jeito de desafio, lançado pelo Rui Miguel Abreu: "Querem terminar a aula a assistir a um concerto?". Se a minha voz interna fosse amplificada naquele instante, ter-se-ia ouvido um "WOW!" bem exclamado.

A noite estava mesmo "condenada" à surpresa e à novidade: o destino era o TMN Ao Vivo, uma das salas de espectáculo mais recentes da cidade, onde eu nunca tinha entrado; a artista que íamos ver dava pelo nome de Hindi Zahra, totalmente desconhecida ao meu ouvido.

Chegados ao local, fui-me ambientando e observando o palco já montado, as pessoas que chegavam, a amplitude de todo aquele espaço, o privilégio de ter o Tejo a escassos metros, Lisboa é cidade que se canta tão bem.

Logo as luzes baixaram, Hindi Zahra entrou em palco, deste lado a curiosidade era muita. Primeiro momento: apenas voz e guitarra, uma melodia suave, calor e conforto - como uma canção de embalar. Um início feliz, como que a convidar os presentes a deixar para trás o longo dia de trabalho (era uma quarta-feira) e as preocupações rotineiras, que iam ficando cada vez mais pequenas. À segunda música, no som e na palavra sentia-se uma declaração de amor. Dei por mim com um sorriso estampado na cara, aquele que temos quando nos sentimos apaixonados. Estava conquistado, portanto.


Na hora e meia que se seguiram, Hindi Zahra e sua banda serviram-nos as canções de Handmade (álbum de estreia editado em 2010 pela Blue Note), pratos exóticos de temperos ocidentais e norte-africanos, entre o jazz e a música berbere, o rock e a soul, a pop e a folk.

Uma fusão que vem incorporada na própria autora de 32 anos: nascida e criada em Marrocos, passando a viver em Paris desde os 15, Hindi Zahra é multi-instrumentalista auto-didacta e dona de uma voz jazzística ("the new Billie Holiday", escreveu a The Wire); em palco, emana o carisma de uma rock star, a sensualidade misteriosa de uma Sherazade, a alegria e espontaneidade de uma artista que está ali pelo amor à música. O público sentiu isso e deixou-se entregar aos momentos de paixão e amor, melancolia e alegria, tradição e fusão, separação e união, introspecção e celebração, emoções e estados de alma tão bem executados por Zahra e cada um dos músicos que a acompanharam.

Teria bastado terminar a aula exactamente na mesma sala onde a começámos, mas acabei por trazer comigo esta experiência (tão agradável quanto inesperada) e o gosto de uma nova descoberta, para ouvir em muitas ocasiões futuras.

Crónica: Hindi Zahra Em Lisboa

Erradamente, o que não falta são pessoas que têm a ideia da world music como algo altamente intelectual, cujos concertos se realizam em salas pequenas e com o público acomodado em cadeiras. Não foi o que se viu no passado dia 9 de Novembro no TMN Ao Vivo, noite em que Hindi Zahra e a sua banda actuaram naquela sala lisboeta. Apresentando o seu único longa-duração (Handmade, lançado no ano passado), a marroquina apresentou um alinhamento em crescendo: se no principio se fizeram ouvir os temas mais introspectivos e cantados em inglês, a partir do meio do espectáculo chegaram os temas mais quentes e animados, cantados, em alguns casos, numa qualquer linguagem berbere.
A crescente empatia criada com o público ali presente permitiu essa mesma actuação em crescendo, não só em termos de ritmos, mas também em termos de confiança em palco. As palmas, que de tema em tema iam sendo mais ruidosas, fizeram até com que tivéssemos direito a um encore e uma série de elogios por parte de Zahra: "estamos muito cansados e fartos de viajar, mas é em pessoas como vocês que encontramos forças para continuar", afirmou. Com efeito, a beleza e a voz de Hindi Zahra ficarão na cabeça de muitos que ali estiveram por muito tempo. Para mim, foram o pretexto inicial para ficar vidrado no palco a absorver cada momento daquele concerto - sim, porque até este começar, não tinha a mínima noção do que iria assistir naquela noite. Que fique registado ainda, que o acerto da banda ao vivo bem como a voz afinadinha de Zahra ao vivo não se encontrão em programas de talentos na televisão nem em qualquer concerto de um nome grande da música, seja ela pop, rock ou outra coisa qualquer.
Últimas palavras para a qualidade e bagagem de todos os músicos em cima de palco. A mistura de influências da música local com conceitos mais globais da pop, rock e soul funcionou, neste caso, perfeitamente. Afinal, a world music também é festa.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Crónica: Hindi Zahra No TMN Ao Vivo

Em noite de ameaça de chuva, numa altura em que o frio de Inverno já se instalava nas ruas de Lisboa, Hindi Zahra, cantora de origem marroquina, preparava-se para encher e aquecer os corações daqueles que ao TMN Ao Vivo se dirigiram. À beira Tejo, a cantora apresentou-se na primeira música de guitarra ao colo, porém foi ao segundo tema que Zahra convenceu a plateia já com todos os músicos que a acompanham em palco.
Num concerto de pouco mais de uma hora, a cantora enfeitiçava todo o público com o decorrer do espectáculo. A boa disposição entre os músicos em palco cativou e passava para quem os ouvia, criando-se uma empatia a largos passos durante o concerto entre músicos e público que enchia pouco mais de meia casa.
Muitos foram até ao concerto desconhecendo completamente a obra e a artista marroquina mas de certo que saíram de lá satisfeitos com um concerto para os mais diversos gostos. Desde a música étnica à rock/pop, com sabor a terra, à folk, passando pela blues e pela soul com a sempre certeira e 'maldita' world music, que cataloga tudo fora do eixo anglo-saxónico; tudo razões para se tirar prazer na audição daquela pérola da música do mundo naquele mesmo dia.
Hindi Zahra
não será dos nomes mais sonantes no que à world music dirá respeito mas que em palco se transforma subtilmente numa sedutora e encantadora de corações isso é certo. A melhor recompensa daquela noite foi a boa surpresa oferecida à maioria dos presentes.
Para quem lá esteve, aquele sorriso tão cedo não sairá da retina.