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segunda-feira, 14 de maio de 2012

Crítica: Spoek Mathambo - "Father Creeper"

Spoek Mathambo
Father Creeper
Sub Pop

Lentamente, o mundo começa a colocar os olhos na música africana, vista como o filão a explorar no que à música mais dançável diz respeito. A editora Sub Pop, nome para sempre associado ao rock, procura dar um empurrão ao apontar baterias a sonoridades mais electrónicas. Desta vez foi à África do Sul e trouxe Father Creeper, a nova proposta do vanguardista Spoek Mathambo. O seu segundo disco aprensenta-se na forma de uma refrescante mistura de ritmos tradicionalmente africanos, actualizados por via de linguagens como o hip-hop, drum'n'bass e dubstep. Este cocktail é acompanhado por sintetizadores e, aqui e ali, por guitarras bem roqueiras. É um disco feito com o corpo em África, mas com a cabeça num futuro mais próximo do que se julgava. Os sons da revolução vêm de África.

Crítica: Buckethead - "Electric Sea"

Buckethead
Electric Sea
Metastation

Quando falamos da discografia de Buckethead, o termo "extensa" é manifestamente curto. Desde que saiu dos Guns N' Roses o multi-instrumentista tem dado largas à sua criatividade, atingindo uma média de quase quatro álbuns ao ano. Mas não se pode dizer que esteja sempre a fazer o mesmo. Em Electric Sea deixa, mais uma vez, a sua zona de conforto e procura entrar nos mundos da música ambiente, flamenco e música clássica, ao reinterpretar composições de Bach e Catalani. A sequela de Electric Tears, de 2002, torna-se também no primeiro disco de Buckethead que ganha dimensão física desde 2005 - uma bela forma de colocar em evidência uma das incursões mais ousadas da sua carreira. Ora de guitarra acústica, ora de guitarra eléctrica em punho, ora de forma mais ora menos melancólica, foi preenchido mais um espaço do parque de diversões de Brian Carroll. Que nunca se canse de colocar música nos nossos ouvidos.

Crítica: Saint Vitus - "Lillie F-65"

Saint Vitus
Lillie: F-65
Season Of Mist

Dezassete anos depois de Die Healing, com separações/reuniões e mudanças na formação pelo meio, os Saint Vitus regressam finalmente aos discos. A pergunta que se impõe é só uma: valerá a pena regressar aos álbuns numa altura em que o som da banda já não é uma novidade? O calendário indica que estamos em 2012, mas vivemos uma época de adoração dos anos 80 e 90. Porque não dar, também, uma oportunidade à boa música dessas décadas? Lillie F-65 vem provar que os Saint Vitus, para além de pioneiros no doom, continuam a ser, em 2012, uma das melhores bandas dentro desse espectro. Um disco que, não apresentando grandes inovações, resgata o que de melhor a banda fez ao longo da sua encarnação original. A intensidade de temas como "Let Them Fall" e "Blessed Night" vale, desde já, a candidatura a um dos melhores da música pesada do ano. Depois, há ainda "Dependence", um épico de sete minutos que vagueia entre o noise, o doom e o psicadelismo.  "Lento" e "pesado" continuam a ser as palavras de ordem.

Crítica: Joan Osborne - "Bring It On Home"

Joan Osborne
Bring It On Home
ADA Global

A voz de Joan Osborne, só por si, é um argumento de peso para ouvir um disco. Se a ela juntarmos temas clássicos de Ray Charles, Muddy Waters ou Otis Redding, tudo fica ainda mais interessante. Muito mudou na vida de Joan desde o seu mega-hit "One Of Us". Parte integrante dessa mudança foi a tour com os Funk Brothers, músicos de proa da editora Motown. A mudança do registo rock FM e country para os blues e soul mais clássicos apenas destacou o que já lá estava: uma voz divinal. Outra componente de extrema importância em Bring It On Home é a autêntica orquestra por detrás dele. Músicos como Jack Petruzelli (também co-produtor do disco) ou Allen Toussaint, emprestam todo o seu talento a este trabalho e destacam-se em "Roll Like A Big Wheel", pérola obscura que Joan descobriu na sua própria colecção de discos. Provas faltassem e Bring It On Home reforçaria a urgência de escutar com atenção esta voz. Seja o registo blues, R&B ou soul.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Crítica: "Father Creeper", Spoek Mathambo



Spoek Mathambo
Father Creeper
Sub-Pop

Em 1994, o Planeta libertava-se de um dos fardos mais constrangedores alguma vez gerados pela mão humana. A queda do Apartheid simbolizou tudo aquilo que sabemos e dela germinaram, também, novos movimentos culturais e novos artistas. A mesma semente cresceu num menino que, aos 10 anos, era fascinado pelo hip hop americano. Dezoito anos depois, Nthato Mokgata responde pelo nome de guerra Spoek Mathambo e lança agora o seu segundo álbum, Father Creeper. Um disco alucinante e fervilhante de géneros - o mesmo fervilhar que agitou a Joanesburgo da sua adolescência. Enérgico e desafiador, capta as electrónicas que agitam o mundo, mas também a herança musical sul-africana. E simboliza um avanço dos tempos: é editado pela Sub-Pop, outrora bastião do rock caucasiano (grunge, alternativo, indie, tudo isso), que agora se rende a novas linguagens: as que definem um mundo que se quer reinventar.

Crítica: Rocket Juice & The Moon



Rocket Juice & The Moon
Rocket Juice & The Moon
Honest Jon's

Pegue-se no impulso explorador de Damon Albarn, junte-se o baixo pujante de Flea e a bateria inconfundível de Tony Allen. O resultado é tão explosivo quanto a fórmula: Rocket Juice & The Moon, nome do projecto e do álbum, é puro funk e afrobeat arrancados da terra e transportados numa viagem espacial de tons psicadélicos. Erykah Badu, o rapper do Gana M.anifest e a cantora do Mali Fatoumata Diawara juntam-se à tripulação do supergrupo, acrescentam-lhe soul, hip hop e alma africana, invocam o espírito de Fela Kuti (Allen foi seu baterista) e dançam na poeira cósmica de Sun Ra. Serve a livre expressão como combustível, entre canções de formato clássico e exercícios instrumentais, em jeito de "jam session". Não parar para escutar este disco é perder uma das propostas mais cativantes do momento.

Crítica: Lisbon Bass


Vários
Lisbon Bass
Adam And Liza

Um disco vai para lá do mero registo sonoro. É um documento que cristaliza um momento da história, contada através da música. A compilação Lisbon Bass é disso exemplo, ao capturar a manifestação local de uma cultura global: a bass music à luz da cidade de Lisboa. A recolha é realizada por Rocky Marsiano (veterano da cena hip hop nacional) e Violet (da dupla de rappers A.M.O.R.). Os ritmos e as linhas de baixo são as variáveis de estudo que, combinadas entre si, incendeiam a pista de dança e reafirmam uma Lisboa multicultural, de cruzamento e miscigenação. Dubstep com kuduro, techno com kizomba, house com drum n bass, dub techno com fado. Quatorze dos melhores produtores lisboetas e um lugar que se reclama no panorama global da electrónica. Um documento valioso para os amantes da música de dança e os cientistas sociais.

Crítica: Nina Kraviz

Nina Kraviz
Nina Kraviz
Rekids

Enganem-se na suspeita: ela não tem qualquer ligação com Lenny. Nascida na Sibéria e radicada em Moscovo, Nina Kraviz é uma DJ que, nos últimos anos, conquistou lugar no circuito do "clubbing". No escuro da pista de dança e na produção, é dona de uma linguagem intrincada e sensual. A sua assinatura é agora revelada ao mundo, no álbum de estreia homónimo. Olhem para a capa e enganem-se novamente: Nina Kraviz não é mais um daqueles discos de "handbag house" polvilhado de "glitter", mas sim um exercício brilhante de técnica e emoção. Batidas cruas de deep house entrelaçam-se com atmosferas intoxicantes, minimalistas, por vezes sombrias. A sua voz emerge, sussurra, anseia, numa pista de dança quase deserta, onde a confissão oscila entre a urgência luxuriante e o eco fantasmagórico. Das pulsações dançantes ao puro “ambient”, a produção analógica confere a este disco textura e corpo. Vale a pena explorá-lo.

segunda-feira, 5 de março de 2012

A Casa é onde o está coração



Sharon Van Etten
Tramp
Jagjaguwar / Popstock
3/5

A pergunta é instantânea: que sons e mensagens se escondem por detrás de um álbum com a palavra Tramp no título? Mais ainda, quando este é editado por uma mulher? Talvez brincando com os automatismos da mente (no inglês corrente, "tramp" não será dos adjectivos mais dignificantes para o sujeito feminino), a palavra eleita por Sharon Van Etten acaba por ser a mais honesta possível - embora não no sentido que estaremos a pensar. Editado em Fevereiro último, Tramp ("vagabundo", na tradução directa) é um álbum que nasceu num período de instabilidade. Durante os 14 meses de gravação, van Etten não teve casa. Dormiu em casa de amigos, manteve os seus bens pessoais guardados por vários lugares... e produziu uma colecção de canções tão honestas como o próprio título.

Fortemente enraízado na tradição folk, o terceiro álbum da compositora e intérprete norte-americana é testemunho de uma vida que, desancorada de espaços físicos, fez da introspecção e da música a sua casa. E isso sente-se nas canções de "Tramp", atravessadas por uma melancolia que, por vezes sabe a amargo ("Give Out"), por vezes é doce ("Leonard"). A interpretação de Van Etten é honesta, em composições que vagueiam entre a beleza simples de "Kevin's", a confrontação de "Serpents" e a sublimação do belíssimo "We Are Fine", um dueto com Zach Condon, dos Beirut. Vagueiam, mas não se perdem: este é um disco coerente e sóbrio. Talvez longo demais, para apontar um senão.

Produzido por Aaron Dessner dos The National, "Tramp" é também um trabalho de colaborações, contando com a participação do já referido Zach Condon e de Matt Barrick dos Walkmen, Thomas Bartlett dos Doveman, Jernn Wasner dos Wye Oak e Julianna Barwick.

Um bom candidato aos mais interessantes do indie rock norte-americano feito em 2012.

Crítica: Sharon Van Etten - Tramp


JagJaguwar/Popstock
(2012)


Tramp, o simples som de vagabundear no álbum de estreia de Sharon Van Etten pela Editora Jagjaguwar.

Durante 14 meses a cantora indie/folk norte-americana esteve em constante movimento pela cidade de Nova Iorque. Sem residência fixa, por entre o bater à porta de alguns amigos e de uns quantos conhecidos, descobriu no estúdio caseiro de Aaron Dessner (The National), o conforto necessário para contar como são as verdadeiras sensações de "vagabundear".

Em momentos previamente definidos como instáveis, Tramp é um álbum que se contextualiza pela estabilidade de sons suaves, delineados na voz cintilante da cantora norte-americana.

Mochila às costas nas incertezas de quem "vagabunda" pela procura do conforto emocional, não há truques, ou teorias para a superação, há sim uma história para contar. É este o argumento desta longa-metragem, que convida à tranquilidade emocional, na explosão da tensão das sensações.

Tema a tema, os encantos deste cenário de amores e dissabores vai tendo como protagonistas principais uma guitarra e uma voz. Os minutos são descritos ao pormenor e o cenário raramente se repete. Da harmonia pop de "Warsaw", à irritação de "Serpents", ouvem-se os "acordes mágicos" de "Magic Chords", para percebermos que "Give it Out" é a razão pela qual Sharon não vai partir para um lugar certo.

Com as participações de vários nomes do panorama musical da actualidade, era de estranhar que os músicos não tivessem mais amigos músicos, e à porta de Aaron Dessner também bateram Matt Barrick (The Walkmen), Zach Condon (Beirut), ou Julianna Barwick (Wye Oak), para desempenharem papéis secundários no brilhantismo da beleza singular e intimista de Sharon.

Tramp é possívelmente a afirmação da maturidade de Sharon Van Etten. É a conclusão do longo caminho de quem encontra o conforto interior, na perdição do percurso das sensações.

4/5

Crítica:Sharon Van Etten - "Tramp"


Jagjaguwar(2012)

Sharon Van Etten, cantora e compositora de Folk, que timidamente, nos tem vindo a encantar com uma voz única e apaixonante. Em (2009) com Because i was in Love, seguido de Epic(2010) e agora em 2012 com Tramp. Com os seus 30 anos, Sharon mostra que com este seu terceiro álbm, é o mais maduro e intimista, promentendo assim ser uma surpresa para este ano. Álbum produzido por Aaaron Dessner(The National) pelas mãos da editora Jagjaguwar, conta com 12 faixas, magicamente filmadas, com uma viagem ás emoções e expressões cruas do nosso interior.Composto por músicas charmosas, com melodias saltitantes e atractivas Serpents, com a sua guitarra produz baladas angelicais Kevin's e melodias de tirar o folego Joke or a Lie que no ínicio, certamente, não serão entendidas, mas o mais importante ainda não será o "entender"mas sim o "sentir". GIve Out é uma canção de amor, passada nas ruas,, da cidade de Nova Iorque, cidade onde vive, “you’re the reason why I move to the city or the reason why I’ll need to leave".
Sharon, nascida em New Jersey, chamou Tramp, ao seu álbum mais instrospectivo, tal como o nome indica , uma longa caminhada foi percorrida pela mesma com passos lentos e pesados, cheia de cicatrizes amorosas e de vivências vagabundas. Sem casa, a compositora ia dormindo em casa de amigos e gravando no estúdio caseiro de Aaaron, durante algum tempo até ter estabilidade própria. Estes meses explicam o próprio álbum, músicas cheias de vida e de força e ao mesmo tempo parecem ter sido retiradas de periodos diferentes da sua vida.
Com partipações especiais no seu albúm de Matt barrick (Walkmen), Thomas Bartlett(Doveman),Zach Condon (Beirut),Jenn Wasner (Wye Oak) Julianna Barwick e claro do próprio Dessner, que abrilhantou um pouco mais este trabalho.
Músicas que lutam com a poesia e que prometem revelar toda a paixão musical da artista com o mundo e a vida, revelando ainda toda a sua segurança e maturidade,tornando este trabalho um poço de místico de sentimentos que promentem certamente envolver o ouvinte...
4/5

Crítica: Sharon Van Etten - "Tramp"


Jagjaguwar/Popstock, 2012
Comecemos por despachar os convidados deste disco para perceber que "vagabundo" é este que se ouve neste longa-duração. Beirut. Aoron Dessner (The National), um dos produtores do álbum, juntamente com a própria Sharon Van Etten. Jenn Wasner, guitarrista e vocalista dos Wye Oak (projecto folk). Julianna Barwick, artista de música ambiente no segredo dos deuses. Matt Barrick dos Walkmen e Thomas 'Doveman' Bartlett, um dos colaboradores mais frequentes dos National. E, agora, as apresentações. Sharon Van Etten é uma cantautora nova-iorquina que, não fosse a sua biografia, apostávamos que teria nascido perto de um bosque, ou pelo menos perto de um jardim meio sombrio. Tramp é a terceira viagem - em disco - da cantora de indie folk rock, que já conta com uma carreira demarcada e discreta - sublinhe-se - nas lides musicais.

Sereno, quente, intenso, familiar e despretensioso. Este disco vádio, que nos invade a alma e o corpo sem que nada o faça prever, confronta e coloca-nos uma série de referências na cabeça. Para além da ilustre palete de nobres convidados que este trabalho acerca, as primeiras imagens que surgem na mente são: a inocência dos Beirut (sendo o mentor do projeto um dos convidados) e o arrojo/raridade de PJ Harvey.
Embora o teor dos convidados diga muito sobre o disco, Sharon demonstra uma visão muito própria na sua música. Aqui somos confrontados, primeiro, com a electricidade. "Warsaw" abre perfeitamente o disco, embora se destaque também "Serpents" - a que mais se apróxima do universo de Polly Jean -, a esperançosa "All I Can", a q.b. psicadélica "I'm Wrong" e a jazzística "Magic Chords". E só depois, se dividirmos a coisa em dois lados, somos confrontados com a singularidade da folk e das singelas canções de bolso, onde, aliás, está toda a essência do disco. "Kevin's" e "Leonard" são as que mais encantam, mas é no fim que nos rendemos totalmente. "Joke Or A Lie" é a despedida doce, e já saudosa, para uma artista que urge ouvir. Nunca com urgência da pop mas com a emergência da boa música. A música de hoje com memória de ontem.
4/5

Crítica: Sharon Van Etten - "Tramp"

Jagjaguwar/Popstock, 2012
4/5
Chegou no passado mês de Fevereiro às lojas o terceiro disco de Sharon Van Etten. Apesar dos seus antecessores terem recolhido o apoio e aclamação de algumas instituições da crítica musical, este Tramp agora lançado atinge um consenso mais alargado. Procura-se neste texto perceber o que ainda há de excitante e constitui novidade na folk norte-americana.
Empurrada para a música por Kip Malone dos TV On The Radio e com participações em discos dos The Antlers e The National, Sharon Van Etten convoca para Tramp uma lista de convidados de renome, a saber: Aaron Dessner dos The National, também a cargo da produção do disco, Matt Barrick dos The Walkmen, Julianna Barwick, nome importante da música ambiente, e Zach Condon dos Beirut, entre outros. Não deixe que os convidados-estrela o confundam: se Tramp é o disco que é, deve-o, principalmente, a Sharon Van Etten - ainda que os músicos convidados tragam, naturalmente, o seu cunho pessoal ao disco.
A atmosfera sonora, ainda que por vezes eléctrica, carrega uma melancolia armada, mais do que pela instrumentação, pela voz de Sharon. "In Line" tem potencial para se tornar na música mais depressiva que alguma vez ouviu. Estando em Portugal, deverá compreender o processo que leva este quase "coitadismo" a ser elevado a arte. Se há um estilo de música que pode ser comparado a Tramp, para lá das fronteiras da sonoridade da folk americana, esse estilo é o Fado.
Com Sharon Van Etten aprendemos que, apesar da sua história, a folk também pode ser pessoal. Há poucos dias ouvi da boca de um músico as seguintes palavras: "hoje em dia é quase impossível inovar em termos de som, o que se pode levar de novo para a música é a própria pessoa e a sua história de vida". A clarividência destas palavras assenta que nem uma luva em Tramp: não inovando em termos de som, Sharon Van Etten entrega às canções a sua experiência de vida. O resultado dificilmente poderia ser melhor e dá o tiro de partida, ainda que ao terceiro disco, para uma carreira a seguir de perto.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Aphex Twin - Selected Ambient Works 85-92


Richard David James, mais conhecido por Aphex Twin , AFX ou Polygon Window (entre muitos outros nomes artísticos) é considerado por muitos como "a mais influente e criativa figura da música electrónica contemporânea".

Desde 1991, Aphex explora as sonoridades electrónicas, os novos instrumentos, novas dimensões musicais, dando formas aos sons. Em 1992 pela produtora belga Apollo, lançou o álbum Selected Ambient Works 85-92. Um álbum de música ambiente que explora também o techno, o acid e o drum n’ bass. Um álbum pioneiro no IDM( Intelligent Dance Music) e influente para o que viria a ser a música ambiente actual.

Este fã da electrónica experimental, brinca neste álbum com a textura e a melodia dos sons, transportando-nos para uma viagem arrebatadora e calma.

Treze faixas totalmente diferentes e originais que geram uma dificuldade em caracterizar e “rotular” este álbum. “We Are The Music Makers” conta com um dialogo da versão original do filme “Willy Wonka & The Chocolate Factory” ; “Green Calx” tem uma sonoridade um tanto estranha e misteriosa com batidas de acid; “Heliosphan” tem uma batida hipnótica e altamente viciante revestida por uma melodia dançante enquanto “I” é a música mais relaxante e curta. A qualidade do som não é das melhores e é também um pouco longo, mas para os interessados em descobrir Aphex Twin podem encontrar as remisturas de 2006 e de 2008 com um nível de qualidade superior.

Um trabalho revolucionário, minimalista e actual que pode ser ouvido em qualquer momento da vida. Um “must have” na prateleira de qualquer coleccionador…

domingo, 11 de dezembro de 2011

Crítica: Kate Bush - "50 Words For Snow"


Fish People, 2011

É sempre um acto solene, o de escutar um novo álbum de uma figura tão mítica. Não só por estarmos diante da Grande Sacerdotisa do art rock e uma das intérpretes britânicas mais marcantes dos últimos 30 anos, definidora de uma nova experiência sonora no feminino - abrindo caminho para a linhagem prosseguida por Tori Amos, Bat For Lashes ou Joanna Newsom. Mas também porque Kate Bush, afastada da órbita musical desde os anos 90, só voltou a manifestar a sua arte ao fim de 12 anos (com Aerial, em 2005), regressando ao silêncio desde então.
Eis que o espírito distante ressurge novamente, com a névoa de Novembro, para nos contar sete histórias de Inverno, no novíssimo 50 Words For Snow.
Tudo começa com um floco de neve a cair. É o seu próprio filho que, no primeiro conto, personifica a leveza, a lenta aproximação ao mundo cá em baixo. "The world is so loud / keep falling / I'll find you", responde Kate, uma mão maternal estendida no ar, a outra perpetuando uma sequência minimal e hipnotizante de piano.
Em "Lake Tahoe", a voz revela-se, sólida e madura (tão longe do registo que a notabilizou em "Wuthering Heights"), para dar corpo ao fantasma da mulher que habita o lago onde morreu afogada, à procura do seu cão. Um reencontro com a Kate Bush primordial, bela e fantasmagórica, prolongado em "Misty", o conto seguinte. Não sabemos se o seu encontro amoroso/sobrenatural com um boneco de neve é sonho ou realidade, mas sentimos a paixão, a ardência, o abandono, a angústia. Piano, baixo, voz e violinos entretecem-se numa viagem envolvente de 13 minutos, pondo a descoberto a sensualidade que sempre permeou a expressão da intérprete.
"Wild Man" é magnífico e cinemático: uma travessia no gelo do Tibete, um grupo de exploradores, o apelo da narradora à abominável criatura perseguida ("Run away, run away"), por quem sente compaixão ("You sound lonely").
Na história seguinte, Elton John junta-se para um dueto, cantando um amor que desafia os limites do tempo, num anseio de imortalidade. Duas interpretações sinceras que precedem o exercício experimental da faixa-título, onde as 50 formas de designar a neve se desdobram sobre a cadência ácida do baixo, da bateria e da guitarra.
Por fim, a graciosidade: em "Among Angels", a voz e o piano de Kate são sublimados por arranjos orquestrais. Um sinal de conforto ("I might know what you mean when you say you fall apart") e uma promessa ("I can see angels standing around you") aquecem o coração, no final desta travessia.
50 Words For Snow é um álbum atmosférico, contemplativo, cuja beleza se deixa descobrir a cada audição. Gélido, mas com a mesma dimensão emocional de sempre. A neve vai derretendo, até que o espírito distante se retira, por fim. Confortados com a visita, esperamos pela próxima aparição de Kate Bush, com a mesma solenidade e reverência.
4/5

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Crítica: Jurassic 5 - "Power in Numbers"

Interscope, 2002

Jurassic 5 dispensam apresentações. Este antigo grupo de "dinossauros" de L.A composto por quatro mc’s (Akil, Chali 2na, Marc 7even e Zaakir) e por dois dj’s ( Cut Chemist e Nu-Mark) lançou em 2002 Power in Numbers, álbum este que viria a conquistar muitos fãs fora do hip-hop devido à sua mistura de estilos que vão desde o jazz à electrónica, do old- school ao pop e ainda com passagem pelo funk e R&B.
Repleto de faixas maduras que fluem facilmente de umas para as outras, começa com os últimos acordes da ultima canção do álbum anterior, Quality Control (2000) como se de uma continuação se tratasse.
Em todo o álbum, existe um jogo de palavras divertido e inteligente, onde reinam os temas quotidianos e histórias de amor urbano. Não obstante a complexidade da mistura de ritmos, trata-se de uma música simples, para toda gente e para todas as ocasiões. Em que se vai descobrindo, com a passagem das faixas, novos instrumentos, novas ideias e novas experiências como se um disco perdido no tempo de hip-hop old-school, fosse injectado com criatividade e modernidade.
A Day at the Races” conta com mais dois gigantes: Percee P e Big Daddy Kane e destaque ainda para a “Thin Line” com a luso-canadiana Nelly Furtado.
Um álbum jurássico cheio de personalidade em que a chama do hip-hop está bem viva mesmo com o seu grupo extinto.
4.5/5

Crítica: Perfume Genius - "Learning"


Matador, 2010
Mais difícil que pensarmos sobre sentimentos que nos perturbam, é relatá-los. Mais difícil que os relatar, é fazê-lo de uma forma tão sincera. É de sinceridade e de relatos de sentimentos perturbadores que se contextualiza “Learning” de Perfect Genius.
O diário de vida do artista solo de Seattle, Mike Handreas. Um caderno de folhas limpas, que vai ganhando contornos de amargura e dissabor a cada palavra que despe a visão profunda de um rapaz de 26 anos.
A voz de timbre subtil, sobre a linha melódica de um piano, marca a harmonia sonora assente na desolação do ser. Fala de morte, solidão e conflitos emocionais numa linguagem simples, como se existisse alguma simplicidade em sentimentos tão complexos.
Conta experiências que moravam num quarto vazio, com a densidade necessária para se sentir que “no one hear all your crying, until you take your last breath” em “Learning”. Aprende-se com Mike Handreas o que este aprendeu com “Mr. Petersen”, “he made me a tape of Joy Division, he told a part of him missing, when i was sixteen, he jumped off a buildyng”. Sai-se do quarto isolado, esquece-se o homem no piano na dimensão instrumental de “Gay Angels”, “No Problem”, ou “Never Did”, que tão bem faz lembrar o eco ambiental de Sigur Rós. As letras que se escondem na textura de um piano em “You Won’t Be Here”, descobre-se que afinal Bon Iver não escreve somente para a Emma e que os Beirut fazem música elegante. E a fragilidade emocional de “Lookout Lookout”, fecha-se as portas para o mundo e sente-se a insegurança da voz que sussurra “there are murders about”.
Excepcionalmente emotivo e genialmente desolador. Learning podia ser a carta de despedida de Mike Handreas, mas é o seu álbum de estreia. Vê-lo é como um filme de final inesperado, que deixa as pessoas incrédulas à saída do cinema. Ouvi-lo pode ser o “Perfume” de um estado de espírito, na personificação “Genius” de uma alma.
4/5

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Crítica: Moonface - "Organ Music Not Vibraphone Like I'd Hoped"

Jagjaguwar, 2011
A 20 de maio de 2011 foi colocado no blog da JagJaguwar, uma editora indie americana que conta com artistas como Bon Iver, Swan Lake e Sunset Rubdown, um texto de 900 palavras que tanto é uma carta pessoal como uma press release. Krug Spencer, o autor, é já um conhecido artista dos ouvidos mais alternativos, Wolf Parade, Swan Lake, Sunset Rubdown, Frog Eyes e Fifths of Seven, uma mão cheia de música não é suficiente e surge Moonface.
Um EP de nome Dreamland EP: marimba and shit-drums já habita o imaginário do novo projecto, a preenchê-lo Krug Spencer toca-nos agora "Organ Music not Vibraphone Like I'd Hoped".
A carta aberta começa com "hoje é o meu aniversário".
O tempo passa, Krug Spencer sabe disso e faz questão de nos relembrar com Moonface, fruto do próprio tempo e talvez o último veículo musical que Krug venha a usar.
Krug é uma pessoa honesta, e tal como o título do EP, o título do novo albúm não mente, um labirinto de melodias onde o órgão, uma bateria electrónica lo-fi e um simples sintetizador são os protagonistas. Como maestro temos a tão particular voz de Krug, tremida, desajeitada, distanciada, lá longe, por vezes como uma manifestação cósmica, esquizofrénica mas repleta de emoção.
Sonoramente falando, o pano de fundo que Krug nos apresenta em todas as músicas pode tornar-se entediante aos mais impacientes, com a faixa mais pequena a tocar 6 minutos, contudo se nos deixarmos hipnotizar pelas diferentes camadas de som e chegarmos à densidade lírica do autor reconhecemos que a música é só metade do recheio.
O mundo imaginário no qual este álbum habita escreve-se entre metáforas, analogias, paradoxos e tantos outros recursos estilísticos. Tem tanto de autobiográfico como de surreal. É um puzzle de palavras.
Denso e complicado, entediante para uns, hipnótico para outros, é a obra de um Krug que envelhece, é um experimentar de ideias. Quem segue o autor atentamente nem uma palavra de descontentamento dirá, para todos os outros talvez não seja a melhor forma de se debruçarem na discografia de Krug Spencer.
4/5

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Crítica: Curren$y - "Verde Terrace"

Warner Bros./Jet Life Recordings, 2011
Daqui a alguns anos a comunidade de Hip-Hop vai olhar para trás e perguntar-se quando é que Curren$y tornou-se uns dos melhores rappers do mundo, e como é que ninguém acompanhou esse desenvolvimento.Desde do lançamento de Pilot Talk em 2010, o álbum que carimbou o seu reconhecimento como um dos mais respeitados "low profile" rappers nos estados unidos, Curren$y tem lançado uma grande quantidade de mixtapes de grande qualidade e conta também já com três álbuns desde essa data.
Embora a critica por vezes ligue Curren$y a cultura dos Mc's que só rimam sobre erva, como o nosso conhecido Wiz Khaliffa, Curren$y diferencia-se desse estereótipo, com menos exposição e com mais imaginação e consistência no seu trabalho.
Mas o facto de conseguir produzir tanta quantidade de boa musica em tão pouco tempo e mesmo assim permanecer com a atitude de "isto para mim não é nada de novo" é o mais impressionante.Este ano Curren$y lançou a mixtape Verde Terrace produzida pelo Dj Drama e lançada a través da sua própria produtora musical Jet Life em pareceria com a Warner Bros.,isto após ter abandonado a Cash Money/Young Money recordings em 2007, facto que se nota claramente a través da diferente musicalidade das suas produções a partir dai, longe de ser das melhores mixtapes que já ouvi dele, assim como muitas das mixtapes que tem com o Dj Drama, "The Hot Spitta" como é conhecido, mantém-se liricalmente muito forte.
Por outro lado a escolha de beats acaba por ser um pouco repetitiva ou óbvia, e agora com a moda de ir ao baú tentar encontrar o melhor clássico para produzir o melhor mix, curren$y agarra em "Ten Crack Commandments" do Notorious B.i.G e produz o mix "Crack BC", de tantos clássicos que Biggie lançou na vida a escolha nao poderia ser mais infeliz.
Mas beats a parte,o poder lírico do Mc de New Orleans misturado com o flow descontraído a deslizar por entre cada faixa, faz com que as historias que conta ganhem vida tornando-se difícil não prestar atenção a cada letra.Quem ouvir Verde Terrace facilmente poderá reconhecer que trata-se de alguém que consome erva com alguma regularidade...mas ao contrario do batido "weed rapper" e do "weed talk", Curren$y eleva essa conversa para outro nível com metáforas e duplos sentidos, que como o próprio diz manter-se: "lifted like sanctions", conseguindo fazer uma abordagem não tão óbvia e banal como a maior parte dos rappers da actualidade.
Pela postura simples que mostra no "rap game" e pela honestidade que empoe nas musicas, muitos duvidam do seu sucesso, por isso ele friza: "Nonchalant, but i'm very aware of what's going on", em "Pinifarina" a terceira faixa do álbum.
Verde Terrace mostra mais uma vez que o skill de curren$y consegue sobrepor-se a qualquer produtor inovando e criando nova e melhor musica,mas nunca saindo do seu próprio território,
Jet Life.
3/5

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Crítica: Gil Scott-Heron - "I'm New Here"

XL Recordings, 2010
Depois de 13 anos à espera de lançar um novo trabalho este não é o regresso que muitos fãs esperavam. Depois de alguns problemas com drogas e a justiça, este veterano do blues renasce do vinil atravás de Richard Russel, da XL Recordings com um álbum virado para o futuro, navegando entre o trip-hop, dubstep, folk e blues.
Um álbum intimista, confessional e auto-crítico que retrata um homem simples e solidário que nunca esquece as suas raízes. Ao contrário dos seus últimos discos em que encontrávamos mensagens de cariz político e activista, "I'm New Here" foca-se em si próprio. "Me And The Devil" e "I'm New Here são versões consagradas de blues e folk com uma nova roupagem e interpretação próprias do "Bob Dylan negro".
Trata-se de um músico excepcional, com o dom eterno da palavra, que nos transmite neste disco toda a sua força e coragem, como homem e lenda da música, que deixa um legado e um último suspiro de criatividade.
Um álbum recomendado, ao qual fã ou não fã de Gil Scott, não se pode ficar indiferente.
4/5