Como se tratasse de um aniversário de uma pessoa - aqueles em que se faz uma festa e se convidam os amigos - os X-Wife chamaram a palco a deolinda Ana Bacalhau, o tigre lendário Paulo Furtado, o senhor das guitarras Tó Trips e o metronómico André Tentúgal. Ao longo de uma das noites mais quentes do ano, ainda mais quente para quem estava no TMN Ao Vivo, foram desfilando todos os singles da carreira da banda de João Vieira e companhia, com os trunfos "On The Radio" e "Rockin' Rio" a serem guardados para o fim, deixando ainda espaço para a apresentação do inédito "Retaliate". Pela sala, que em alguns momentos se transformou em pista de dança, o público reagia efusivamente ás suas preferidas: assinalam-se "Fireworks" e "Keep On Dancing", entre muitos pontos altos. Venham mais 10!
segunda-feira, 11 de junho de 2012
Reportagem: X-Wife, 10 Anos Depois
Como se tratasse de um aniversário de uma pessoa - aqueles em que se faz uma festa e se convidam os amigos - os X-Wife chamaram a palco a deolinda Ana Bacalhau, o tigre lendário Paulo Furtado, o senhor das guitarras Tó Trips e o metronómico André Tentúgal. Ao longo de uma das noites mais quentes do ano, ainda mais quente para quem estava no TMN Ao Vivo, foram desfilando todos os singles da carreira da banda de João Vieira e companhia, com os trunfos "On The Radio" e "Rockin' Rio" a serem guardados para o fim, deixando ainda espaço para a apresentação do inédito "Retaliate". Pela sala, que em alguns momentos se transformou em pista de dança, o público reagia efusivamente ás suas preferidas: assinalam-se "Fireworks" e "Keep On Dancing", entre muitos pontos altos. Venham mais 10!
Crónica: O Segredo dos Xutos & Pontapés
No passado dia 16 de Maio, a ETIC proporcionou, aos que por lá
apareceram, uma palestra/conversa de tom informal com Zé Pedro, uma das
figuras de maior relevo do panorama musical português. Ser humano de
qualidades inestimáveis, o guitarrista dos Xutos & Pontapés abordou
de forma descomprometida diversos aspectos da sua carreira como músico:
como os Xutos são uma banda com os olhos postos no futuro; como, no
principio, tocavam em qualquer lugar e por qualquer preço; ou como em
1977 havia entre 15 e 20 punks em Lisboa.
O músico, que já foi jornalista, foi deliciando a audiência com
episódios diversos e marcantes na sua já longa carreira, de mais de 30
anos. Mas o que me traz a estas linhas é uma simples afirmação: "na
vida, o mais importante é dar e receber. Quando tens 30 mil pessoas a
aplaudir-te efusivamente, tens de retribuir esse carinho de forma
obrigatória". Zé Pedro referia-se, obviamente, ao primeiro concerto, na
edição do ano passado do Optimus Alive, após o mui badalado transplante
hepático a que foi sujeito. Numa época em que, perdoem-me a expressão,
há música a rodos, os artistas têm de procurar novas formas de fidelizar
o público. É mais que evidente que a arrogância artística já não é algo
que encante particularmente as audiências. Aliás, é perfeitamente
natural que numa era em que todas as distâncias estão cada vez mais
curtas, o público procure também uma maior proximidade com os seus
ídolos.
Já não basta a música. Há todo um pacote que inclui a imagem, a
ideologia, a atitude e um sem número de factores, que é procurado por
quem consome música. Zé Pedro e os Xutos & Pontapés perceberam isso,
não nos dias de hoje, mas desde o principio de carreira. Dessa forma, a
maior banda nacional retribui o carinho público com total entrega em
palco e novidades de todas as formas e feitios: música, alinhamentos de
concertos ou merchandising. Este, meus caros, é o grande segredo para
que a música dos Xutos atravesse três gerações com o sucesso que se vê.
sábado, 26 de maio de 2012
As portas já abriram para o segundo dia do Rock in Rio. Depois da passagem dos maiores nomes do metal no primeiro dia, hoje esperam-se 80 mil pessoas. Com os Linkin Park, Limp Bizkit, The Offspring e Smashing Pumpkins no palco principal , promete ser um dia forte, cheio de bons concertos e surpresas.
No palco Sunset continuam com a grandes bandas, destaco os portugues Xutos e Pontapés, Titãs e Rita RedShoes.
A animação continuará pela noite fora na tenda electrónica com os canadianos AZARI & III a encerrarem a primeira parte deste festival.
Quem vem á Cidade do Rock Hoje?
Eu Vou e Vocês?
Com 5 álbuns editados e sendo a quinta vez que actuam em Portugal, estava tudo a postos para mais um grande concerto dos Mastodon que marcam presença pela segunda vez este ano em Lisboa. Apresentaram o seu último álbum The Hunter e mostraram muita dedicação ao público.
Muito heavy metal, guitarradas e vozes loucas, deram um grande espectáculo ao pôr-do-sol, focado no último trabalho.
Um concerto curto mas muito intenso que não desiludiu os fãs de Mastodon...
Muito heavy metal, guitarradas e vozes loucas, deram um grande espectáculo ao pôr-do-sol, focado no último trabalho.
Um concerto curto mas muito intenso que não desiludiu os fãs de Mastodon...
Os Metallica foram os últimos a actuar no palco mundo perante uma plateia cheia. Na Bagagem traziam o Black Album e com vozes e guitarras afinadas deram um espectáculo de duas horas de sucessos.
A banda sentia-se confortável no palco, adoram Lisboa,e Ela os Metallica, com clássicos como "The Unforgiven" e "Enter Sandman" levaram os fãs ao rubro, mesmo na famosa balada "Nothing Else Matters" a multidão gritava em plenos pulmões!
Com direito a fogo-de-artificio e bolas saltitonas gigantes nada os fazia abandonar o palco e dedicando a última música à "família Metallica portuguesa" fizeram um adeus sentido e demorado!
Um concerto monstroso, cheio de energia a que já fomos habituados!
A banda sentia-se confortável no palco, adoram Lisboa,e Ela os Metallica, com clássicos como "The Unforgiven" e "Enter Sandman" levaram os fãs ao rubro, mesmo na famosa balada "Nothing Else Matters" a multidão gritava em plenos pulmões!
Com direito a fogo-de-artificio e bolas saltitonas gigantes nada os fazia abandonar o palco e dedicando a última música à "família Metallica portuguesa" fizeram um adeus sentido e demorado!
Um concerto monstroso, cheio de energia a que já fomos habituados!
Com um público a crescer, os Evanescence subiram ao palco principal para apresentar o terceiro álbum homónimo. Pela voz magnífica de Amy Lee, superaram todas espectativas dos fãs.Com clássicos do álbum Fallen, como Lithium e My Immortal encantaram a plateia que num coro desafinado mas entusiasmante tentaram acompanhar a Diva do metal.
Finalizaram com a Bring Me To Life, o que levou os espectadores ao rubro. Um concerto cheio de sucessos e com um som bem mais pesado do que o habitual.
Esperemos que nao demorem mais oito anos a voltar a Portugal!
Finalizaram com a Bring Me To Life, o que levou os espectadores ao rubro. Um concerto cheio de sucessos e com um som bem mais pesado do que o habitual.
Esperemos que nao demorem mais oito anos a voltar a Portugal!
A banda brasileira Sepultura apresentou-se no 1ºdia do Rock In Rio com os franceses Thambours Du Bronx.
Com milhares de fãs a assistirem, abriram o palco Mundo mostrando todo o poder do metal. Apresentaram o seu último álbum Kairos, juntamente com os tambores frenéticos dos seus convidados.
Vista por muitos como a banda brasileira mais bem sucedida a nível internacional, voltaram ao festival para um grande concerto ao som das latas gigantes, contagiando o público com a sua energia.
Com menos de 1h de concerto, provaram que a mistura entre as duas bandas resultou na perfeição, e a prova disso foi a multidão que pulou sem parar...
Com milhares de fãs a assistirem, abriram o palco Mundo mostrando todo o poder do metal. Apresentaram o seu último álbum Kairos, juntamente com os tambores frenéticos dos seus convidados.
Vista por muitos como a banda brasileira mais bem sucedida a nível internacional, voltaram ao festival para um grande concerto ao som das latas gigantes, contagiando o público com a sua energia.
Com menos de 1h de concerto, provaram que a mistura entre as duas bandas resultou na perfeição, e a prova disso foi a multidão que pulou sem parar...
O palco Sunset foi inaugurado pela banda de Adolfo Luxúria Canibal, os Mão Morta que cativaram o público sedento por música aderindo em massa a este palco.
A eles, juntaram-se Pedro Laginha dos Mundo Cão e o escritor Valter Hugo Mãe que perante uma plateia cheia deram um grande concerto de abertura na lingua de camões.
A eles, juntaram-se Pedro Laginha dos Mundo Cão e o escritor Valter Hugo Mãe que perante uma plateia cheia deram um grande concerto de abertura na lingua de camões.
ROCK IN RIO 2012
O Rock In Rio Lisboa está de volta ao Parque da Bela Vista. Durante 5 dias irão passar inúmeras bandas por este festival, prometendo muito calor, divertimento e principalmente boa música.
Metallica,Stevie Wonder,Ivete Sangalo,Maroon5 e Bruce Springsteen são apenas alguns dos gigantes da música mundial que poderá assistir...
Sol,pessoas,dançar,pular,rir,cantar, grandes concertos e muitas outras atracções...
SEJAM BEM VINDOS À CIDADE DO ROCK!
Eu vou e vocês?
Metallica,Stevie Wonder,Ivete Sangalo,Maroon5 e Bruce Springsteen são apenas alguns dos gigantes da música mundial que poderá assistir...
Sol,pessoas,dançar,pular,rir,cantar, grandes concertos e muitas outras atracções...
SEJAM BEM VINDOS À CIDADE DO ROCK!
Eu vou e vocês?
sexta-feira, 18 de maio de 2012
Zé Pedro
«Sabes quem é que conheci hoje? O Zé Pedro, dos Xutos», disse eu à minha irmã, em conversa ao telefone. «A boa energia que ele transmite... é incrível». Ela concordou: «Sim, é essa a ideia que eu tenho dele». De facto, as boas vibrações, quando genuínas, atravessam qualquer meio - seja a televisão, a rádio, o papel impresso ou o disco. Mas quando temos oportunidade de estar na presença de um músico - e de um homem - como o Zé Pedro, o impacto é mil vezes maior.
Essa oportunidade aconteceu no passado dia 16 de Maio, num encontro organizado pela ETIC e moderado por Rui Miguel Abreu. Os moldes da conversa foram definidos logo aos primeiros minutos: enquanto Rui Miguel Abreu pedia aos presentes para se chegarem mais para a frente, Zé Pedro pegou na mesa que fazia de barreira entre "artista convidado" e "público" e afastou-a para o lado. Neste clima de proximidade, muitas histórias foram contadas: os dias em que começou como jornalista de música, a formação da banda, os altos e baixos num percurso já com 33 anos, até mesmo o nascimento do punk e do grunge.
Mas é da energia deste homem que não me vou esquecer. Zé Pedro sente-se profundamente grato por fazer aquilo que o apaixona e por pertencer à banda mais acarinhada pelos portugueses. Por isso, faz questão de responder pessoalmente ao email de um miúdo de 10 anos, carregado de perguntas para os Xutos. Acredita que a música só faz sentido enquanto processo de dar e receber. «Um músico, quando sobe ao palco, é um fio condutor. Temos de retribuir a energia que estamos a receber do público com o nosso empenho - nem que seja para uma plateia de cinco pessoas. Um artista que não consegue retribuir isso fica tonto, megalómano, egoísta.» Acredita que a arte é saudável quando esse fio condutor se liga também a outros artistas - sejam eles músicos, jovens designers ou profissionais de video.
Recorda-se da primeira coisa em que pensou, quando acordou depois da cirurgia: «em 15 dias ponho-me bom e consigo estar no Optimus Alive». E isto embora os médicos estimassem um recobro de 3 semanas. A paixão alimentou-lhe o corpo e deu-lhe alta, a tempo de subir ao palco do Passeio Marítimo de Algés. Trinta mil pessoas a aplaudirem à sua frente, «um baque» e a emoção que o fez chorar, a si e aos seus colegas.
A dada altura, pedi a sua opinião acerca do estado do jornalismo musical em Portugal. Esperava críticas sobre o que não temos. Recebi elogios sobre o que temos. Perante um copo meio vazio, Zé Pedro vê um copo meio cheio. E eu vejo uma lição de vida.
Essa oportunidade aconteceu no passado dia 16 de Maio, num encontro organizado pela ETIC e moderado por Rui Miguel Abreu. Os moldes da conversa foram definidos logo aos primeiros minutos: enquanto Rui Miguel Abreu pedia aos presentes para se chegarem mais para a frente, Zé Pedro pegou na mesa que fazia de barreira entre "artista convidado" e "público" e afastou-a para o lado. Neste clima de proximidade, muitas histórias foram contadas: os dias em que começou como jornalista de música, a formação da banda, os altos e baixos num percurso já com 33 anos, até mesmo o nascimento do punk e do grunge.
Mas é da energia deste homem que não me vou esquecer. Zé Pedro sente-se profundamente grato por fazer aquilo que o apaixona e por pertencer à banda mais acarinhada pelos portugueses. Por isso, faz questão de responder pessoalmente ao email de um miúdo de 10 anos, carregado de perguntas para os Xutos. Acredita que a música só faz sentido enquanto processo de dar e receber. «Um músico, quando sobe ao palco, é um fio condutor. Temos de retribuir a energia que estamos a receber do público com o nosso empenho - nem que seja para uma plateia de cinco pessoas. Um artista que não consegue retribuir isso fica tonto, megalómano, egoísta.» Acredita que a arte é saudável quando esse fio condutor se liga também a outros artistas - sejam eles músicos, jovens designers ou profissionais de video.
Recorda-se da primeira coisa em que pensou, quando acordou depois da cirurgia: «em 15 dias ponho-me bom e consigo estar no Optimus Alive». E isto embora os médicos estimassem um recobro de 3 semanas. A paixão alimentou-lhe o corpo e deu-lhe alta, a tempo de subir ao palco do Passeio Marítimo de Algés. Trinta mil pessoas a aplaudirem à sua frente, «um baque» e a emoção que o fez chorar, a si e aos seus colegas.
A dada altura, pedi a sua opinião acerca do estado do jornalismo musical em Portugal. Esperava críticas sobre o que não temos. Recebi elogios sobre o que temos. Perante um copo meio vazio, Zé Pedro vê um copo meio cheio. E eu vejo uma lição de vida.
Crónica: Negócios com o Tempo
Fiquei emocionado quando ouvi os primeiros acordes de "Sete Mares". Aposto que uma larga fatia das pessoas que esgotaram o Coliseu de Lisboa sentiram o mesmo arrepio. Quase 30 anos depois de "Glória", mais de 20 depois dos grandes concertos, a Sétima Legião estava de novo ali, no palco. Sem substitutos livres de rugas ou cabelos grisalhos. Era mesmo a formação original da banda.
Na noite de sexta-feira, o Coliseu transformou-se em máquina do tempo para toda uma geração que viveu a adolescência nos anos 80. Até para aqueles que eram catraios, mas que, como eu, têm irmãos mais velhos que lhes despertaram o gosto pela música pop e para quem o Top Disco era tão importante como os desenhos animados. O que me levou a concluir: é tramado estar na casa dos 30 e ter a música como a paixão mais antiga. Porque se já estivesse nos 40, muito provavelmente teria assistido à glória da Sétima Legião no Pavilhão Carlos Lopes. Teria sido quase certo um lugar nas primeiras filas do Estádio José Alvalade, a ver David Bowie. Teria rumado a Madrid ou Barcelona e sido esmagado pela monumental Blond Ambition Tour de Madonna. Só que em 1990, ano em que se situam os ditos casos, os meus 13 anos não permitiram tamanhas aventuras. É tramado.
Enquanto a banda de Pedro Oliveira e Rodrigo Leão tocava a sua música e na nossa memória, dei por mim a accionar a imaginação. «Se soubesse o que sei hoje...» e pudesse negociar com o Tempo, estaria entre os que testemunharam o pulsar dançante e revolucionário dos Heróis do Mar, quando em 81 se estrearam no Rock Rendez-Vous. Seria até um nadinha mais ambicioso e rumaria à Londres de 79, para assistir à mítica (e única) digressão de Kate Bush. E não me perdoaria se perdesse a viagem até Nova Iorque, para transpirar na pista no Paradise Garage, com Lerry Levan ali mesmo, na cabine do DJ. Não fui mais atrás, para não trair o sentimento de pertença - neste exercício de evasão vale tudo até 77, ano em que passei a fazer parte desta realidade.
Pois a julgar pelo que aconteceu no mês passado em Coachella, caminhamos a passos largos para converter estes voos - da lembrança ou da imaginação - em coisas "reais". Durante a actuação de Snoop Dogg e Dr. Dre, surgiu em palco um convidado especial: nada mais que Tupac Shakur, o rapper cujo assassinato deixou consternada a comunidade hip hop, corria o ano de 96. Obviamente, era um holograma, mas a audiência ficou algures entre a perplexidade e a comoção. É dado assente que a memória e a "retro-mania" alimentam todo um negócio, que começou de mansinho nas compilações e estações de rádio temáticas. Tornou-se mais engenhoso e invadiu as salas de espectáculo - não foi há muito tempo que o Atlântico recebeu Kim Wilde, os ABC, Nik Kershaw e Belinda Carlisle, todos na mesma noite, num pack nostálgico com o rótulo “Here And Now”. Até aqui, tudo bem. Mas agora, começa a entrar no domínio do bizarro: o negócio da memória quer acordar os mortos.
Diz-se por aí que Tupac, o holograma humano, vai entrar em digressão pelos Estados Unidos. Que é o mesmo que dizer: já vamos poder pagar para ver palcos vazios. Daqui até termos James Brown ou Elvis a dançar na nossa sala, vai um pulinho. É esquisito demais para a minha cabeça. Prefiro a verdade 2D de uma imagem de arquivo. Ou os meus voos imaginários. Ou os Sétima Legião com rugas e cabelos grisalhos, a presentearem-nos com a sua real magia, no palco do Coliseu. Isto sim, pode causar-me arrepios.
Rui Clemente, Maio de 2012
Na noite de sexta-feira, o Coliseu transformou-se em máquina do tempo para toda uma geração que viveu a adolescência nos anos 80. Até para aqueles que eram catraios, mas que, como eu, têm irmãos mais velhos que lhes despertaram o gosto pela música pop e para quem o Top Disco era tão importante como os desenhos animados. O que me levou a concluir: é tramado estar na casa dos 30 e ter a música como a paixão mais antiga. Porque se já estivesse nos 40, muito provavelmente teria assistido à glória da Sétima Legião no Pavilhão Carlos Lopes. Teria sido quase certo um lugar nas primeiras filas do Estádio José Alvalade, a ver David Bowie. Teria rumado a Madrid ou Barcelona e sido esmagado pela monumental Blond Ambition Tour de Madonna. Só que em 1990, ano em que se situam os ditos casos, os meus 13 anos não permitiram tamanhas aventuras. É tramado.
Enquanto a banda de Pedro Oliveira e Rodrigo Leão tocava a sua música e na nossa memória, dei por mim a accionar a imaginação. «Se soubesse o que sei hoje...» e pudesse negociar com o Tempo, estaria entre os que testemunharam o pulsar dançante e revolucionário dos Heróis do Mar, quando em 81 se estrearam no Rock Rendez-Vous. Seria até um nadinha mais ambicioso e rumaria à Londres de 79, para assistir à mítica (e única) digressão de Kate Bush. E não me perdoaria se perdesse a viagem até Nova Iorque, para transpirar na pista no Paradise Garage, com Lerry Levan ali mesmo, na cabine do DJ. Não fui mais atrás, para não trair o sentimento de pertença - neste exercício de evasão vale tudo até 77, ano em que passei a fazer parte desta realidade.
Pois a julgar pelo que aconteceu no mês passado em Coachella, caminhamos a passos largos para converter estes voos - da lembrança ou da imaginação - em coisas "reais". Durante a actuação de Snoop Dogg e Dr. Dre, surgiu em palco um convidado especial: nada mais que Tupac Shakur, o rapper cujo assassinato deixou consternada a comunidade hip hop, corria o ano de 96. Obviamente, era um holograma, mas a audiência ficou algures entre a perplexidade e a comoção. É dado assente que a memória e a "retro-mania" alimentam todo um negócio, que começou de mansinho nas compilações e estações de rádio temáticas. Tornou-se mais engenhoso e invadiu as salas de espectáculo - não foi há muito tempo que o Atlântico recebeu Kim Wilde, os ABC, Nik Kershaw e Belinda Carlisle, todos na mesma noite, num pack nostálgico com o rótulo “Here And Now”. Até aqui, tudo bem. Mas agora, começa a entrar no domínio do bizarro: o negócio da memória quer acordar os mortos.
Diz-se por aí que Tupac, o holograma humano, vai entrar em digressão pelos Estados Unidos. Que é o mesmo que dizer: já vamos poder pagar para ver palcos vazios. Daqui até termos James Brown ou Elvis a dançar na nossa sala, vai um pulinho. É esquisito demais para a minha cabeça. Prefiro a verdade 2D de uma imagem de arquivo. Ou os meus voos imaginários. Ou os Sétima Legião com rugas e cabelos grisalhos, a presentearem-nos com a sua real magia, no palco do Coliseu. Isto sim, pode causar-me arrepios.
Rui Clemente, Maio de 2012
O Dia Em Que Quase Chorei Com O Zé Pedro
A altura de Zé
Pedro dos Xutos & Pontapés é, para mim e desde sempre, resultado de uma perspectiva oblíqua. Literalmente.
Literalmente, porque ao vivo tive sempre de inclinar um pouco a cabeça para o ver, em cima de palco.
A altura de Zé
Pedro dos Xutos & Pontapés é, para mim e desde sempre, a altura de uma
estrela rock. A maior de Portugal e a que o país soube fazer, e muito bem –
sublinhe-se. Porém, a sua altura, enquanto estrela rock, nunca foi desfocada na
minha visão. Passo a explicar. Nunca senti, nestes 22 anos que levo, que Zé
Pedro usufruísse do status daquela
estrela de rock que todos imaginamos, longínqua e inalcançável. Cedo
percebi,
como todos os outros «putos» que o idolatram, que ele é uma pessoa
comum. As
provas são mais que muitas: desde ser considerado “o gajo mais porreiro
do rock
português”, que abraça as velhas e as novas gerações – de capitães
faustos e
pontos negros –, até ao facto de no ano passado ter pago pelos excessos,
de drogas
e de álcool. Ele é, afinal de contas, mortal como eu, como todos nós. A
minha imagem de Zé Pedro
nunca foi desfocada porque são muitos os exemplos de humanidade na sua
vida:
ele foi jornalista musical (“e esta, hein?”), tal como pretendo ser; ele
é
ainda um inocente sonhador no mundo da música, que deseja poder chegar
aos 50
anos de Xutos tal como os Rolling Stones; ele já foi abalado pela morte
de uma
pessoa querida, Marta Ferreira, irmã de Kalu e manager da banda,
desaparecida em 2007; ele é radialista e tem um programa na Radar; ele
gosta apaixonadamente de música - sabe, por exemplo, como se construiu e
congeminou
o punk e o grunge. Enfim, ele é humano como eu, como todos nós.
A
altura de Zé
Pedro dos Xutos & Pontapés é, para mim e desde sempre, tão
profundamente humana que hoje, dia 16 de
Maio de 2012, tive a oportunidade de o cumprimentar, de falar com ele e
de
poder tirar uma foto – da praxe – a seu lado, numa palestra organizada
pela
ETIC. E, numa sala em que poucos centímetros nos separavam, quase
chorei por ver os seus olhos brilharem de emoção quando relatou às
pessoas que ali
se encontravam, mas de olhos postos nos meus, um dos episódios mais
marcantes na
sua vida. Um episódio em que Zé Pedro, o músico, pagou pelos seus
vícios. Um episódio
em que Zé Pedro, a pessoa, teve de receber um transplante de fígado. Um
episódio
em que Zé Pedro, fã de música, quis muito recuperar do transplante a
tempo de poder tocar no festival Optimus Alive, em Julho do ano passado,
e assim poder partilhar os bastidores com Iggy Pop, um dos seus ídolos.
Um episódio
em que Zé Pedro, um comum mortal como qualquer um de nós, chorou assim
que
subiu ao palco e foi recebido com os aplausos de mais de 30 mil pessoas.
Aplausos de boas-vindas, de alívio e aplausos pelo seu regresso ao
combate.
A altura de Zé
Pedro dos Xutos & Pontapés é, para mim e desde sempre, mundana. Embora a sua banda já conte
33 anos, embora ele já conte com 55 e embora faça parte da maior banda de rock
em Portugal, Zé Pedro não tem tiques nem desejos de estrela de rock. Zé Pedro
não é arrogante ou antipático. Zé Pedro não padece da doença do sucesso. Zé
Pedro não é Keith Richards dos Rolling Stones – o seu ídolo de sempre. Zé Pedro
é Zé Pedro, o “gajo mais porreiro do rock ‘n’ rol português” e muito
provavelmente do mundo.
A altura de Zé
Pedro dos Xutos & Pontapés é, para mim e desde sempre, de pura admiração.
A altura de Zé
Pedro dos Xutos & Pontapés é, para mim e na verdade, a mesma que a
minha.
quinta-feira, 17 de maio de 2012
Apontamento: X-Wife - 10 Anos 10 Singles
The Vicious Five, Loto, Plaza, Post-Hit ou You Should Go Ahead são
alguns dos nomes nacionais que se destacaram na altura em que os X-Wife
do Porto surgiram. Infelizmente, todos os primeiros nomes enumerados já
cessaram actividades ou desapareceram do mapa musical português, restando só o
último. The Strokes, The Rapture, LCD Soundsystem, Bloc Party ou The
Killers são os nomes internacionais nos quais os X-Wife se podem rever.
No entanto, para além de terem nascido na mesma época - e até um pouco
antes -, apontar a banda de João Vieira, Rui Maia e Fernando Sousa como
uma cópia destes nomes é errado. Muitas vezes, os X-Wife são bem melhores
do que os 'originais' que lhes são apontados e o único 'problema' será o
local de nascimento que está no BI da banda. Mas esqueça-se tal facto.
Dez anos depois, é Lisboa o local de celebração da primeira década do
grupo e o público atendeu ao seu apelo. Ninguém resistiu à oportunidade
de poder dançar com a ex-mulher e houve quem quisesse selar segundo
casamento, ou melhor desejar mais dez anos com X-Wife. E foram
originalmente melhores que os originais.
terça-feira, 15 de maio de 2012
Crítica: Julia Holter - "Ekstasis"
Julia Holter
Ekstasis
Rvng Intl.
Existem álbuns que ganham vida própria, que existem num outro plano de realidade onde a música que tocam ganha forma, corpo, alma. Em Tragedy, o primeiro álbum a sério de Julia Holter, ela faz um apelo com "Try To Make Yourself A Work Of Art". A cantora multi-instrumentista pegou nas suas palavras e concretizou-as em Ekstasis.
Numa primeira audição, a música de Holter move o chão que pisamos, não sabemos onde estamos. Ouvimos um sem número de barulhos. A água a correr, o vento, nuvens. Um conjunto de sons, muitos difíceis de identificar à partida, outros para sempre perdidos na música. O disco volta ao início, a viagem recomeça, acaba. Começamos a perceber os contornos. Afinal há chão, há paredes e há tecto. Ekstasisé uma casa de vários quartos, alguns de jazz, música clássica, ambiente, étnica, electrónica. É um álbum de reflexões pop.
10/10
Crítica: Moonface - "With Siinai: Heartbreaking Bravery"
Moonface
With Siinai: Heartbreaking Bravery
Jagjaguwar
É difícil saber de cor todo o portfólio de Krug Spencer: Wolf Parade, Sunset Rubdown, Swan Lake, Fifths of Seven, Frog Eyes e, presentemente, Moonface, a sua última manifestação musical - diz ele. Já ouvimos Dreamland EP: marimba and shit-drums, já ouvimos Organ Music Not Vibraphone Like I'd Hoped e agora ouvimos With Siinai: Heartbreaking Bravery.
Com Siinai, uma banda de krautrock finlandesa, o músico canadiano nunca esteve tão distante da terra a que pertence e nunca esteve tão em casa. Krug Spencer dá a voz, Siinai coloca-a no éter. Não é uma colaboração disparatada. A escrita esquizofrénica de Spencer está menos críptica, mas não menos eloquente. A tristeza, a melancolia, a solidão, a violência das palavras ecoam tão forte como os instrumentos tocados por Siinai.
Gravado no gelado país europeu, esta terceira encarnação de Moonface é calorosa. O nome do álbum é directo e conciso como o tema que lhe dá fogo. São músicas de amor, ou a ausência dele, que nos fazem bater o coração a diferentes velocidades desde a primeira à última faixa.
8,5/10
Crítica: The Magnetic Fields - "Love at the Bottom of the Sea"
The Magnetic Fields
Love at the Bottom of the Sea
Merge
Quem o conhece sabe que Stephin Merrit não é notório pela sua simpatia, mas o que escreve sim. O humor distorcido do cantor autor norte-americano está de volta. A seu lado, Claudia Gonson e o resto da banda, ou não fossem eles The Magnetic Fields.
As saudades já se faziam sentir, por isso o décimo-primeiro álbum da banda volta aos sintetizadores que nos primeiros anos de vida deram som à banda. Voltamos também aos dois minutos por faixa de 69 Love Songs. É um álbum de regressos, parece que voltámos aos anos noventa. À partida parece ser a fórmula perfeita para ultrapassar o teste do tempo. "Andrew in Drag", o primeiro single, mostra-se tão difícil de sair dos ouvidos como tirar o sorriso da cara após o ouvir. É bom, muito bom, mas sabe a pouco. É esse o problema existencial de Love at The Bottom of The Sea. A curta duração das músicas deixa-nos a pedir por mais, a genialidade de algumas coloca outras menos brilhantes à sombra. Soaria muito melhor se tivesse precedido 69 Love Songs, mas infelizmente a data na capa refere 2012. Stephin, queremos mais.
7/10
Crítica: Spoek Mathambo - "Father Creeper"
Nthato Mokgata é Spoek Mathambo, Spoek Mathambo é Father Creeper. O que é Father Creeper? Trata-se do segundo álbum do músico africano, um misturar de géneros que se ligam entre si por uma camada orgânica que pulsa ao seu próprio ritmo. África é o que se respira em todas as músicas, continente de uma riqueza imensurável, é o que bombeia os diamantes de sangue de que fala Spoek Mathambo. Contudo, tal como a terra que lhe dá fôlego, é um álbum de dimensões colossais, é um cenário de guerra. Facilmente somos apanhados desprevinidos pelos danos colaterais das explosões sonoras criadas pelo batalhar entre o dub-step e o rock, o hip-hop e o electro, o reggae e o post-punk.
Torna-se difícil caminhar - em cada faixa uma mina de som espera-nos. Não é acaso que tenha sido lançado por uma das editoras naturais da terra do grunge, a Sub-Pop. Alto, corrosivo e agreste, tanto liricamente como sonoramente. Afinal de contas não é disto que o grunge se faz?
Crónica: Sétima Legião
São 21h45, as luzes apagam-se e o Coliseu enche-se de som - os Sétima Legião entram em palco. Há quarenta e cinco minutos ainda a sala de espectáculos, vazia, aguardava pelo público que começava a dificultar a passagem aos que simplesmente passeavam pela Rua das Portas de Santo Antão. Comecei a notar um padrão na fila de entrada para o concerto. Não foi necessário um grande poder de observação. Eu era, provavelmente, uma das pessoas mais novas que ali estava.
Seria mentira não associar a longevidade da banda à longevidade de quem a ouve. Eu era o mais novo e, como se isso não bastasse, também possivelmente o único que não tinha os êxitos a tentarem fugir-me da boca antes de me entrarem pelos ouvidos. "Com certeza que os conheces, mesmo sem teres consciência disso." diziam-me enquanto tentavam cantarolar algumas dessas mesmas músicas. Eu acenava que sim, uma leve sensação familiar despertava.
As filas adensavam-se, lia-se "esgotado" nos vários posters à entrada do Coliseu e aquele sussurar de vozes antes de um concerto crescia e crescia. A hora que marcava a reunião dos Sétima Legião ganhava ímpeto.
"Suba pela direita, o seu lugar é no terceiro andar, camarote trinta." Assim o fiz. Subi pela direita, degrau a degrau até ao terceiro andar, camarote 30. Olhei para cima, olhei para baixo, cadeiras. Foi a minha segunda surpresa, tendo sido a primeira o "esgotado". Poucos foram os concertos sentados a que assisti no Coliseu (na verdade, só um), e os meus vinte e três anos já tiveram em mãos um considerável número de bilhetes para a sala Lisboeta. "Isto é um concerto sério.", pensei eu.
São 21h45, as luzes apagam-se e o Coliseu enche-se de som - os Sétima Legião entram em palco. Palmas, gritos, assobios ouvem-se quinze minutos após a hora assinalada nos bilhetes, para logo de seguida darem lugar a "Baile das Sete Partidas". A partir daí fez-se, não, tocou-se história. Percebi de imediato que não conhecendo a banda, conhecia-a. Cravadas no inconsciente estavam músicas como "Noutro Lugar", "Sem Ter Quem Amar", "Sete Mares" e "Por Quem Não Esqueci". Não consegui deixar de bater o pé, contagiando a mão direita com um leve bater no joelho, que para a cabeça se alastrou balançando-a.
Foi um concerto de memórias sem lugar, onde a cada música tentava lembrar-me e relembrar-me em que tempo, lugar, as tinha ouvido, com quem e porquê. Olhava em meu redor e via nos outros a mesma sensação nostálgica que os trinta anos de música evocavam.
Não foram os quinze minutos de atraso, não foram os problemas técnicos, muito menos o repetir de "Sete Mares", "Noutro Lugar" e "Por Quem Não Esqueci" que fizeram este concerto menos memorável para os que vêem e ouvem na banda, mais do que um símbolo de portugalidade, memórias. "Isto foi um concerto a sério.", pensei eu. Cumpriu-se a Sétima Legião.
Reportagem: Record Store Day - Flur
A indústria da música evoluiu dramaticamente, desde o fonógrafo cilíndrico de Thomas Edison até ao ubíquo MP3. Cada vez mais a música escreve-se em zeros e uns, vende-se em zeros e uns, toca-se em zeros e uns, mas a música é muito mais do que esta linguagem binária. Talvez por receio da mudança para uma era em que tudo se transcreve para o digital, talvez apenas pelo som nostálgico da agulha a deslizar pelo álbum que roda no gira-discos, surge o Record Store Day - o nome dado à celebração da música enquanto formato físico e à sua distribuição num comércio mais tradicional.
O que começou por ser uma iniciativa americana rapidamente se fez ouvir pelo resto do mundo. E fez-se ouvir com eventos especiais, concertos, encontros entre músicos e fãs, e, provavelmente, com o que mais nos deliciamos, os lançamentos e as versões dedicadas unicamente ao terceiro sábado de abril. E os descontos, não nos esqueçamos dos descontos.
Este ano contou com lançamentos como a colaboração de Feist com Mastodon:Feistodon; St. Vincent: Krokodil b/w Grot; Arcade Fire: Sprawl II; Animal Collective:Transverse Temporal Gyrus; Beach House: Lazuli b/w Equal Mind; The Flaming Lips And Heady Fwends; entre tantos, tantos outros que contaram também - e é aqui que somos levados à nossa loja de música independente favorita de Portugal - com Lisbon Bass.
A compilação com distribuição em Portugal exclusiva pela Flur teve lançamento, justamente, a 21 de abril. Nascido na Holanda às mãos do MC D-Mars, o antigo membro dos Micro montou um electrizante puzzle da cena Bass Lisboeta. Catorze é o número de peças: Photonz, Roulet, Octa Push, Infestus e Deestant Rockers são alguns dos autores dessas peças que no seu todo encaixam os beats quebrados tanto entre influências africanas, como britânicas.
A presença de Lisbon Bass, com desconto de lançamento, nos expositores da loja independente de Santa Apolónia esteve acompanhada por Tó Trips e um showcase da editora lisboeta Cafetra. Os primeiros acordes ao vivo deram-se por volta das já marcadas 16h15 num line up em folhas A4 coladas pelas paredes da loja. Rapidamente se formou uma meia lua de pessoas no final da loja enquanto Tó Trips, sentado e com a guitarra em punhos, nos dava as boas vindas a mais um Record Store Day.
O dia da música começou.
Às 16h45 a música tocava tanto para o Tejo como para nós, sendo nós a esplanada do restaurante vizinho da Flur e ainda o mais diverso público que se aglomerava na parte de trás dos armazéns do Cais da Pedra. O showcase da Cafetra dá-nos música com um rapaz loiro, de cabelos encaracolados, ao microfone. De voz trémula e esganiçada, 100 Leio tocava sozinho para um público divido entre a turma da Cafetra, os curiosos que por ali passavam e os sempre presentes amantes de música.
Paralelamente aos concertos, os discos da Flur passavam de mão em mão, de olho em olho e de ouvido em ouvido. Ao balcão estava o já simpático José Moura, que com simpatia acrescida cumprimentava quem entrava na loja. A seu lado dispunha de dois gira-discos dos quais as pessoas se serviam para picar o que encontravam nas recheadas prateleiras. "Existem sempre surpresas atrás de surpresas, um bom disco atrás de uma boa capa, uma boa capa à frente de um bom disco", ouvia-se várias vezes por palavras diferentes enquanto solenemente procurávamos também por qualquer surpresa digna de se fazer pagar. Viramos a cabeça para o lado e está um rapaz com o olhar fixado num dos nossos álbuns favoritos deste ano. Não conseguimos resistir uma troca de palavras.
Etic: "Uh… Olá. Não pude deixar de reparar que estás a ver o Ekstasis da Julia Holter."
Etic: "Uh… Olá. Não pude deixar de reparar que estás a ver o Ekstasis da Julia Holter."
Rapaz: "Sim, gosto muito da Julia. É um álbum fenomenal."
Etic: "E o que te trás à Flur num dia como este? E estou a referir-me ao Record Store Day, não ao tempo… (risos)".
Rapaz: "(Mais risos) Venho essencialmente ver, e ouvir o que se passa, as novidades, as não novidades, os descontos."
Etic: "És um caça descontos?"
Rapaz: "Não sou caçador profissional, mas todos gostamos de preços mais interessantes. Agora mais do que nunca."
Etic: "Isso quer dizer que és um comprador de música, ou um "comprador de música"?"
Rapaz: "Todos "compramos música", mas… Não gosto nada dessas coisas do digital, hoje em dia as pessoas esquecem-se um bocado de que a música é também um bem material, não apenas uma manifestação virtual, mas algo que é criado com objectos e pessoas reais, quando assim o é, claro. Comprar o vinil, ou o álbum é para mim muito importante."
Etic: "És apologista de tê-lo nas mãos."
Rapaz: "Sim, sou apologista de tê-lo nas minhas mãos, gosto de sentir o cheiro, a textura. (risos)."
Etic: "Mas tu és aqui de Lisboa? O teu sotaque…"
Rapaz: "Não, não. Vim passar uma temporada com uns amigos meus e decidi que era uma boa oportunidade passar por aqui."
Etic: "E porque estás cá dentro e não lá fora?"
Por esta altura já se ouvia a voz de João Marcelo como Éme.
Rapaz: "Não vou dizer que adoro e ando sempre à procura de bandas portuguesas, gosto de ser surpreendido, mas… Houve uma altura em que estive colado em Moulinex e Xinobi, mas a onda folk da Cafetra não me diz nada."
Etic: "E o que te trás à Flur num dia como este? E estou a referir-me ao Record Store Day, não ao tempo… (risos)".
Rapaz: "(Mais risos) Venho essencialmente ver, e ouvir o que se passa, as novidades, as não novidades, os descontos."
Etic: "És um caça descontos?"
Rapaz: "Não sou caçador profissional, mas todos gostamos de preços mais interessantes. Agora mais do que nunca."
Etic: "Isso quer dizer que és um comprador de música, ou um "comprador de música"?"
Rapaz: "Todos "compramos música", mas… Não gosto nada dessas coisas do digital, hoje em dia as pessoas esquecem-se um bocado de que a música é também um bem material, não apenas uma manifestação virtual, mas algo que é criado com objectos e pessoas reais, quando assim o é, claro. Comprar o vinil, ou o álbum é para mim muito importante."
Etic: "És apologista de tê-lo nas mãos."
Rapaz: "Sim, sou apologista de tê-lo nas minhas mãos, gosto de sentir o cheiro, a textura. (risos)."
Etic: "Mas tu és aqui de Lisboa? O teu sotaque…"
Rapaz: "Não, não. Vim passar uma temporada com uns amigos meus e decidi que era uma boa oportunidade passar por aqui."
Etic: "E porque estás cá dentro e não lá fora?"
Por esta altura já se ouvia a voz de João Marcelo como Éme.
Rapaz: "Não vou dizer que adoro e ando sempre à procura de bandas portuguesas, gosto de ser surpreendido, mas… Houve uma altura em que estive colado em Moulinex e Xinobi, mas a onda folk da Cafetra não me diz nada."
Etic: "Está na hora de eu ir espreitar o que se ouve lá fora. Mas diz-me, pensas levar alguma coisa daqui?"
Rapaz: "Sim, sim. Algo com cheiro e textura. (risos) Tenho os olhos postos no EP de Burial."
Etic: "Boas compras, e um bom resto de dia cheio de música. Como te chamas, já agora?"
Luís: "Sou o Luís, prazer."
"Estou com o cabo no sítio errado. Vou passar à segunda." Assim foi o começo de Éme, e assim foi a disposição crescente deste showcase. Nunca tocando mais do que vinte minutos, Go Suck a Fuck, Smiley Face e Pega Monstro deram-nos a provar da música que tocam. Ouvia-se, degustava-se e ou se gostava, ou não se gostava. Após a actuação de cada um, a malta jovem da Cafetra, alguma mais tímida do que outra, deambulava entre a entrada e as traseiras da Flur. O convívio era tão importante como a música, ora não é isso que o Record Store Day é?
Rapaz: "Sim, sim. Algo com cheiro e textura. (risos) Tenho os olhos postos no EP de Burial."
Etic: "Boas compras, e um bom resto de dia cheio de música. Como te chamas, já agora?"
Luís: "Sou o Luís, prazer."
"Estou com o cabo no sítio errado. Vou passar à segunda." Assim foi o começo de Éme, e assim foi a disposição crescente deste showcase. Nunca tocando mais do que vinte minutos, Go Suck a Fuck, Smiley Face e Pega Monstro deram-nos a provar da música que tocam. Ouvia-se, degustava-se e ou se gostava, ou não se gostava. Após a actuação de cada um, a malta jovem da Cafetra, alguma mais tímida do que outra, deambulava entre a entrada e as traseiras da Flur. O convívio era tão importante como a música, ora não é isso que o Record Store Day é?
segunda-feira, 14 de maio de 2012
Crítica: Spoek Mathambo - "Father Creeper"
Spoek Mathambo
Father Creeper
Sub Pop
Lentamente, o mundo começa a colocar os olhos na
música africana, vista como o filão a explorar no que à música mais
dançável diz respeito. A editora Sub Pop, nome para sempre associado ao
rock, procura dar um empurrão ao apontar baterias a sonoridades mais
electrónicas. Desta vez foi à África do Sul e trouxe Father Creeper,
a nova proposta do vanguardista Spoek Mathambo. O seu segundo disco
aprensenta-se na forma de uma refrescante mistura de ritmos
tradicionalmente africanos, actualizados por via de linguagens como o
hip-hop, drum'n'bass e dubstep. Este cocktail é acompanhado por
sintetizadores e, aqui e ali, por guitarras bem roqueiras. É um disco
feito com o corpo em África, mas com a cabeça num futuro mais próximo do
que se julgava. Os sons da revolução vêm de África.
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